Arquivo para Março, 2005

31 Março 2005

BRÉTEMAS

Já venho seguindo há algum tempo o evoluir do trabalho do blogue Brétemas, cujo autor vem de Vigo, na Galiza. E tenho gostado do seu trabalho, de modo que coloquei um link aqui na coluna da direita.

Aconselho, de novo, uma visita ao Brétemas. O texto de ontem foi sobre a capa do livro de “Farenheit 451, o clásico de Bradbury que editaremos en breve. A lectura da nosa tradución volveu emocionarme como hai tantos anos me sucedera coa película de Truffaut. É un deses libros que non envellece, quizais porque como 1984 e Un feliz mundo novo souberon describir profeticamente a submisión de Occidente aos medios e ao conformismo”. Internet no centro da estratexia de normalización lingüística e aniversário da Rádio Galega são os temas antecedentes.

Agradeço também ao blogue galego a referência amável ao IC no passado dia 23.

31 Março 2005

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BRÉTEMAS

Já venho seguindo há algum tempo o evoluir do trabalho do blogue Brétemas, cujo autor vem de Vigo, na Galiza. E tenho gostado do seu trabalho, de modo que coloquei um link aqui na coluna da direita.

Aconselho, de novo, uma visita ao Brétemas. O texto de ontem foi sobre a capa do livro de “Farenheit 451, o clásico de Bradbury que editaremos en breve. A lectura da nosa tradución volveu emocionarme como hai tantos anos me sucedera coa película de Truffaut. É un deses libros que non envellece, quizais porque como 1984 e Un feliz mundo novo souberon describir profeticamente a submisión de Occidente aos medios e ao conformismo”. Internet no centro da estratexia de normalización lingüística e aniversário da Rádio Galega são os temas antecedentes.

Agradeço também ao blogue galego a referência amável ao IC no passado dia 23.

31 Março 2005

MARIA KEIL ILUSTRADORA

keil3.jpgFoi sob este tema que a Biblioteca Nacional fez uma mostra bibliográfica da ilustradora Maria Keil, entre Setembro e Novembro do ano passado. Ocupado com as aulas, deixei passar a exposição; só agora me foi possível adquirir o catálogo (€5) e ficar com dobrada pena de não ter visto a mostra.

O catálogo é pequeno, lê-se em menos de uma hora. As reproduções das imagens, que ilustraram livros, merecem muita atenção. Há um traço fino e elegante, por exemplo na publicidade que fez para as cintas Pompadour. Além disso, o desenho envolve-se ou é envolvido por figuras geométricas ou circulares, nas ilustrações de livros para crianças, que dão uma sensação próxima do movimento e da alegria.

Aliás, é o que se conta da vida de Maria Keil, do marido Francisco Keil do Amaral e do filho (com o mesmo nome, mas conhecido por Pitum, também reconhecido mediaticamente num programa de televisão). Nas férias grandes, conta Raúl Hestnes Ferreira no catálogo, davam curso à imaginação e divertiam-se. Faziam fantoches, vestiam-se de reis, rainhas, princesas, dançarinas e outras figuras em cenários improvisados de representação. José Gomes Ferreira, Fernando Lopes Graça e Bento de Jesus Caraça contavam-se entre os convidados.

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Arquitecto, Francisco Keil do Amaral ficou conhecido no país por ter ganho o concurso para o pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Paris (1937). Maria Keil, “pintora, desenhadora, ilustradora, decoradora de interiores, designer gráfica e de mobiliário, ceramista, cenógrafa e figurinista, autora de cartões para tapeçaria e, sobretudo, para composições azulejares [...], firmou-se, há muito, como uma das referências obrigatórias da criação plástica portuguesa” (Rui Afonso Santos, no mesmo catálogo, p. 7).

31 Março 2005

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MARIA KEIL ILUSTRADORA

keil3.jpgFoi sob este tema que a Biblioteca Nacional fez uma mostra bibliográfica da ilustradora Maria Keil, entre Setembro e Novembro do ano passado. Ocupado com as aulas, deixei passar a exposição; só agora me foi possível adquirir o catálogo (€5) e ficar com dobrada pena de não ter visto a mostra.

O catálogo é pequeno, lê-se em menos de uma hora. As reproduções das imagens, que ilustraram livros, merecem muita atenção. Há um traço fino e elegante, por exemplo na publicidade que fez para as cintas Pompadour. Além disso, o desenho envolve-se ou é envolvido por figuras geométricas ou circulares, nas ilustrações de livros para crianças, que dão uma sensação próxima do movimento e da alegria.

Aliás, é o que se conta da vida de Maria Keil, do marido Francisco Keil do Amaral e do filho (com o mesmo nome, mas conhecido por Pitum, também reconhecido mediaticamente num programa de televisão). Nas férias grandes, conta Raúl Hestnes Ferreira no catálogo, davam curso à imaginação e divertiam-se. Faziam fantoches, vestiam-se de reis, rainhas, princesas, dançarinas e outras figuras em cenários improvisados de representação. José Gomes Ferreira, Fernando Lopes Graça e Bento de Jesus Caraça contavam-se entre os convidados.

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Arquitecto, Francisco Keil do Amaral ficou conhecido no país por ter ganho o concurso para o pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Paris (1937). Maria Keil, “pintora, desenhadora, ilustradora, decoradora de interiores, designer gráfica e de mobiliário, ceramista, cenógrafa e figurinista, autora de cartões para tapeçaria e, sobretudo, para composições azulejares [...], firmou-se, há muito, como uma das referências obrigatórias da criação plástica portuguesa” (Rui Afonso Santos, no mesmo catálogo, p. 7).

30 Março 2005

A FNAC NO CAMPO PEQUENO?

A edição de sábado passado da revista do Expresso deixou-me água na boca. Três páginas com o título “O novo Campo Pequeno”, em texto de Mafalda Ganhão e infografia de Hélder Brites e Jaime Figueiredo.

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No texto: “O facto é que, debaixo da arena [da praça de toiros] um mundo novo passa a existir. Restauração, comércio e estacionamento, o Campo Pequeno passa a ter todos os argumentos modernos que justificam as visitas às novas «catedrais» urbanas”. Na infografia: informação de lojas-âncora como supermercado e FNAC.

Os meus olhos saltaram ao lerem FNAC. Isso quer dizer que deixo de ir ao Chiado ou ao Colombo para visitar e comprar livros ou DVDs. O centro de Lisboa é mesmo aqui ao lado! Vou incluir uma ida diária ao novo espaço comercial, no meu passeio higiénico a seguir ao jantar. E os €0,70 do custo do café no Spazio, ali na esquina, deixam de ser um roubo mas o preço pago pela centralidade.

30 Março 2005

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A FNAC NO CAMPO PEQUENO?

A edição de sábado passado da revista do Expresso deixou-me água na boca. Três páginas com o título “O novo Campo Pequeno”, em texto de Mafalda Ganhão e infografia de Hélder Brites e Jaime Figueiredo.

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No texto: “O facto é que, debaixo da arena [da praça de toiros] um mundo novo passa a existir. Restauração, comércio e estacionamento, o Campo Pequeno passa a ter todos os argumentos modernos que justificam as visitas às novas «catedrais» urbanas”. Na infografia: informação de lojas-âncora como supermercado e FNAC.

Os meus olhos saltaram ao lerem FNAC. Isso quer dizer que deixo de ir ao Chiado ou ao Colombo para visitar e comprar livros ou DVDs. O centro de Lisboa é mesmo aqui ao lado! Vou incluir uma ida diária ao novo espaço comercial, no meu passeio higiénico a seguir ao jantar. E os €0,70 do custo do café no Spazio, ali na esquina, deixam de ser um roubo mas o preço pago pela centralidade.

30 Março 2005

“AI OS NÚMEROS!”

Uma das colunas do Público que leio com mais agrado é a escrita por Joaquim Fidalgo, um dos fundadores do jornal, onde atingiu um lugar elevado e foi provedor do leitor. Ele não escreve sobre temas dominantes ou fracturantes, mas sobre coisas simples – diria mesmo banais. Embora sempre com muita acutilância e sabedoria dos seus anos de vida (apesar disso, ainda é jovem).

O tema de hoje tem o título que pus no começo da mensagem. É a propósito de um estudo de opinião da Media Planning, citado pela Lusa, em que se diz que 95,3% dos jovens portugueses entre os 15 e os 24 anos compram jornais e revistas. Num outro sítio do estudo, e também referido pelo articulista do Público, lê-se que a média dos portugueses que lêem jornais e revistas atinge os 80,1%.

Comenta Joaquim Fidalgo: “Ora aqui está uma grande novidade. Eu não imaginava. E andamos todos a lamentar-nos por os portugueses lerem pouco, por os jornais terem difusões baixas, por estarmos (também) nesta matéria sempre na cauda da Europa, etc. etc. Nada disso. Agora há uma sondagem que repões, com rigor e objectividade, a verdade dos factos: os portugueses lêem jornais e revistas que se fartam”. Adiante, sugere ele. Mas conclui: “não há jornalista que ao pegar nesta «informação» se interrogue […] esses 95,3% de jovens que «compram jornais e revistas» compram quando? Todos os dias? Duas vezes por semana? Uma vez por quinzena? De mês a mês? Ou só uma vez por outra”?

Na realidade – e quase ao mesmo tempo –, eu lia na newsletter Meios & Publicidade e logo no blogue ContraFactos & Argumentos, de Pedro Fonseca, as tiragens por número dos principais jornais e revistas: Maria (261532), TV 7 Dias (168953), Nova Gente (153777), Selecções do Reader’s Digest (134941), Expresso (131070), Correio da Manhã (115943), Telenovelas (115433), Jornal de Notícias (112150) e Visão (102399). Há jornais de informação aqui representados mas muitas das publicações são sobre televisão e a sua programação.

Para rematar o seu texto, o nosso autor escreve: “Fizeram as contas?… Ou estão a gozar connosco”? Joaquim Fidalgo é actualmente professor na Universidade do Minho.

30 Março 2005

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“AI OS NÚMEROS!”

Uma das colunas do Público que leio com mais agrado é a escrita por Joaquim Fidalgo, um dos fundadores do jornal, onde atingiu um lugar elevado e foi provedor do leitor. Ele não escreve sobre temas dominantes ou fracturantes, mas sobre coisas simples – diria mesmo banais. Embora sempre com muita acutilância e sabedoria dos seus anos de vida (apesar disso, ainda é jovem).

O tema de hoje tem o título que pus no começo da mensagem. É a propósito de um estudo de opinião da Media Planning, citado pela Lusa, em que se diz que 95,3% dos jovens portugueses entre os 15 e os 24 anos compram jornais e revistas. Num outro sítio do estudo, e também referido pelo articulista do Público, lê-se que a média dos portugueses que lêem jornais e revistas atinge os 80,1%.

Comenta Joaquim Fidalgo: “Ora aqui está uma grande novidade. Eu não imaginava. E andamos todos a lamentar-nos por os portugueses lerem pouco, por os jornais terem difusões baixas, por estarmos (também) nesta matéria sempre na cauda da Europa, etc. etc. Nada disso. Agora há uma sondagem que repões, com rigor e objectividade, a verdade dos factos: os portugueses lêem jornais e revistas que se fartam”. Adiante, sugere ele. Mas conclui: “não há jornalista que ao pegar nesta «informação» se interrogue […] esses 95,3% de jovens que «compram jornais e revistas» compram quando? Todos os dias? Duas vezes por semana? Uma vez por quinzena? De mês a mês? Ou só uma vez por outra”?

Na realidade – e quase ao mesmo tempo –, eu lia na newsletter Meios & Publicidade e logo no blogue ContraFactos & Argumentos, de Pedro Fonseca, as tiragens por número dos principais jornais e revistas: Maria (261532), TV 7 Dias (168953), Nova Gente (153777), Selecções do Reader’s Digest (134941), Expresso (131070), Correio da Manhã (115943), Telenovelas (115433), Jornal de Notícias (112150) e Visão (102399). Há jornais de informação aqui representados mas muitas das publicações são sobre televisão e a sua programação.

Para rematar o seu texto, o nosso autor escreve: “Fizeram as contas?… Ou estão a gozar connosco”? Joaquim Fidalgo é actualmente professor na Universidade do Minho.

30 Março 2005

AS MENINAS DOS TELEFONES

Fernanda de Castro (1900-1994), reputada romancista e mulher de António Ferro (ideólogo do Estado Novo), fez publicar um artigo com este título na primeira página do Diário de Notícias, a 7 de Julho de 1929. Os belíssimos desenhos pertencem a Bernardo Marques, numa dada altura vizinho do prédio de Fernanda e António, quando aquele estava casado com Ofélia (José Gomes Ferreira, pertencente a um outro quadrante político que não o do casal Ferro, também viveu no mesmo edifício, o que tornava este um pólo de forte atracção intelectual).

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Para Fernanda de Castro, a telefonista “tem de desenvolver-se numa atmosfera de manivelas, de botões eléctricos e de alavancas, sob um céu metálico onde o sol não rompe nunca, nem mesmo neste claro mês de Julho”. As telefonistas, como as outras raparigas, queriam o sol, o amor, as alegrias, “um certo vestidinho que viram em certa montra, para agradar a certos olhos queridos, certos perfumes, certas jóias que as fariam lindas e que todas desejam num impossível desejo; querem – pois têm apenas 20 anos! – quereriam sair dali para fora, fugir à rede dos fios telefónicos e vir procurar, à luz do sol, sob o céu que Deus fez para todos, o magro quinhão do sonho”.

fernandacastro1.jpgfernandacastro2.jpg

Mais à frente, no texto, Fernanda de Castro escreve: “- Está lá? Está lá? … Não, não está, a menina do telefone foi atrás das vozes que dirigiu para Londres, para Berlim, para Paris; foi também viajar. Não fez as malas, não tomou o sud-express, não pôs os pés em nenhum transatlântico, não subiu em avião, mas já vai muito longe, já atravessou duas ou três fronteiras, já passou por duas ou três alfândegas”.

“Pobres meninas dos telefones – continua o seu texto da primeira página do Diário de Notícias ainda em formato broadsheet -, que são as únicas meninas de Lisboa que não podem namorar ao telefone”.

fernandacastro4.jpgMas o telefone da escritora toca: “Largo esta folha de papel e pego no auscultador. Uma voz amiga atravessa o espaço e vem até mim. De repente, o silêncio, a ligação cortada, o vácuo, a distância. Chegou a minha vez:
“-Está lá? Está lá?
“Nada. Ninguém.
“- Que grande pouca vergonha! Isto não pode continuar… Ah, estas meninas dos telefones! Amanhã faço uma queixa à Companhia…
“E, logo a seguir, depois deste desabafo, pego na pena e, com uma perfeita boa fé, assino esta crónica”.

Uma pequena pérola estética esta página do Diário de Notícias! Até o itálico do texto, em contraste com a letra do resto da página, era uma nota de distinção. Vivia-se num tempo em que a literatura ainda abraçava o jornalismo (e em que, simultaneamente, António Ferro começava a brilhar nesse jornal com entrevistas feitas a líderes internacionais identificados com regimes autoritários e ditatoriais).

Nota: em Agosto de 1930, era inaugurada a primeira central telefónica automática (já sem recurso a telefonistas), na Trindade, em Lisboa, junto ao actual teatro.

30 Março 2005

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AS MENINAS DOS TELEFONES

Fernanda de Castro (1900-1994), reputada romancista e mulher de António Ferro (ideólogo do Estado Novo), fez publicar um artigo com este título na primeira página do Diário de Notícias, a 7 de Julho de 1929. Os belíssimos desenhos pertencem a Bernardo Marques, numa dada altura vizinho do prédio de Fernanda e António, quando aquele estava casado com Ofélia (José Gomes Ferreira, pertencente a um outro quadrante político que não o do casal Ferro, também viveu no mesmo edifício, o que tornava este um pólo de forte atracção intelectual).

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Para Fernanda de Castro, a telefonista “tem de desenvolver-se numa atmosfera de manivelas, de botões eléctricos e de alavancas, sob um céu metálico onde o sol não rompe nunca, nem mesmo neste claro mês de Julho”. As telefonistas, como as outras raparigas, queriam o sol, o amor, as alegrias, “um certo vestidinho que viram em certa montra, para agradar a certos olhos queridos, certos perfumes, certas jóias que as fariam lindas e que todas desejam num impossível desejo; querem – pois têm apenas 20 anos! – quereriam sair dali para fora, fugir à rede dos fios telefónicos e vir procurar, à luz do sol, sob o céu que Deus fez para todos, o magro quinhão do sonho”.

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Mais à frente, no texto, Fernanda de Castro escreve: “- Está lá? Está lá? … Não, não está, a menina do telefone foi atrás das vozes que dirigiu para Londres, para Berlim, para Paris; foi também viajar. Não fez as malas, não tomou o sud-express, não pôs os pés em nenhum transatlântico, não subiu em avião, mas já vai muito longe, já atravessou duas ou três fronteiras, já passou por duas ou três alfândegas”.

“Pobres meninas dos telefones – continua o seu texto da primeira página do Diário de Notícias ainda em formato broadsheet -, que são as únicas meninas de Lisboa que não podem namorar ao telefone”.

fernandacastro4.jpgMas o telefone da escritora toca: “Largo esta folha de papel e pego no auscultador. Uma voz amiga atravessa o espaço e vem até mim. De repente, o silêncio, a ligação cortada, o vácuo, a distância. Chegou a minha vez:
“-Está lá? Está lá?
“Nada. Ninguém.
“- Que grande pouca vergonha! Isto não pode continuar… Ah, estas meninas dos telefones! Amanhã faço uma queixa à Companhia…
“E, logo a seguir, depois deste desabafo, pego na pena e, com uma perfeita boa fé, assino esta crónica”.

Uma pequena pérola estética esta página do Diário de Notícias! Até o itálico do texto, em contraste com a letra do resto da página, era uma nota de distinção. Vivia-se num tempo em que a literatura ainda abraçava o jornalismo (e em que, simultaneamente, António Ferro começava a brilhar nesse jornal com entrevistas feitas a líderes internacionais identificados com regimes autoritários e ditatoriais).

Nota: em Agosto de 1930, era inaugurada a primeira central telefónica automática (já sem recurso a telefonistas), na Trindade, em Lisboa, junto ao actual teatro.

30 Março 2005

ACONTECIMENTOS

1) Jornadas de Media, Cidadania e Proximidade na Covilhã, anuncia o blogue Baleia Branca, de João Carlos Correia, professor da Universidade da Beira Interior (Covilhã). O encontro, onde se discutirão media regionais, media comunitários e blogues, vai decorrer nos dias 13 e 14 de Outubro, naquela universidade. Iniciativa do Departamento de Comunicação e Artes e do Labcom (projecto Media e Proximidade).

Já coloquei na minha agenda o compromisso para o segundo destes dias, pois se trata do II Encontro Nacional de Blogues. Para quem quiser saber mais pormenores, perguntar ao João Carlos Correia, autor de um recente livro, A Teoria da Comunicação de Alfred Schutz (MinervaCoimbra, 2005).

2) Jantar de blogueiros(as) em Lisboa é já no próximo sábado. Uma organização da blogueira Caixa de Pandora. Já são 39 blogueiros (incluindo o IC), na última contagem da organização. A inscrição para este grandioso evento acaba hoje. Se anda distraido(a), contacte a organizadora; use o endereço acima indicado.

30 Março 2005

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ACONTECIMENTOS

1) Jornadas de Media, Cidadania e Proximidade na Covilhã, anuncia o blogue Baleia Branca, de João Carlos Correia, professor da Universidade da Beira Interior (Covilhã). O encontro, onde se discutirão media regionais, media comunitários e blogues, vai decorrer nos dias 13 e 14 de Outubro, naquela universidade. Iniciativa do Departamento de Comunicação e Artes e do Labcom (projecto Media e Proximidade).

Já coloquei na minha agenda o compromisso para o segundo destes dias, pois se trata do II Encontro Nacional de Blogues. Para quem quiser saber mais pormenores, perguntar ao João Carlos Correia, autor de um recente livro, A Teoria da Comunicação de Alfred Schutz (MinervaCoimbra, 2005).

2) Jantar de blogueiros(as) em Lisboa é já no próximo sábado. Uma organização da blogueira Caixa de Pandora. Já são 39 blogueiros (incluindo o IC), na última contagem da organização. A inscrição para este grandioso evento acaba hoje. Se anda distraido(a), contacte a organizadora; use o endereço acima indicado.

30 Março 2005

MODA EM DOIS CONTEXTOS DISTINTOS

Os dois recortes de imprensa que ilustram esta mensagem provêem de situações diversas. O primeiro pertence a uma notícia saída no Sunday Times do último domingo (dia 27) e conta a história de três mulheres de uma certa idade que têm experimentado as várias modas ao longo da sua vida, em peças assinadas por Fiona Henderson. Caroline Elbert, que aparece na imagem, recorda os já idos anos 1950: nessa altura, as rapariguinhas vestiam-se como as suas mães.

sundaytimes27320052.JPG

Caroline devia ser uma mulher muito bonita, a avaliar pela imagem actual do seu rosto. Só em meados dos anos 1960, quando começou a trabalhar em antiguidades na rua Portobello (Londres), é que começou a experimentar a moda. Era hippie e um pouco selvagem que adorava o brilho dos veludos, camisetas e pernas à mostra com uma bracelete no tornozelo. Já mais para o fim da mesma década, Yves Saint Laurent abria a sua primeira loja pronto-a-vestir na Bond Street, um espaço lindo. Caroline, a trabalhar numa empresa americana e mãe de duas crianças, deixou-se levar pela moda francesa. Quando, dez anos depois, viajou pela Ásia central, foi a descoberta de um outro estilo, com um casaco do Uzebesquistão, que ela usava com umas calças jeans.

O segundo recorte pertence ao Público de 20 de Março e dá conta da ModaLisboa. Isto é, enquanto a notícia de cima mostra as escolhas em termos de consumo, esta apresenta o design que aponta para um estilo de produção. Tendências românticas e etno-chic marcarão influências lá mais para o fim do ano.

publico2032005.jpg

Pedro Mourão, Miguel Vieira, Nuno Gama e Osvaldo Martins foram nomes destacados na peça jornalística assinada por Maria Antónia Ascensão, em página agradável pelo seu design. Retiro só uma pequena parte do texto: “As silhuetas combinam bustos justos ao corpo com saias em balão. Mas o contrário também não é proibido”. Ou seja, tudo é possível. Das nove imagens que ilustram a página, seis pertencem a modelos femininos.

A minha pergunta: em termos de indústrias culturais, quanto é que vale o negócio da moda em Portugal?

30 Março 2005

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MODA EM DOIS CONTEXTOS DISTINTOS

Os dois recortes de imprensa que ilustram esta mensagem provêem de situações diversas. O primeiro pertence a uma notícia saída no Sunday Times do último domingo (dia 27) e conta a história de três mulheres de uma certa idade que têm experimentado as várias modas ao longo da sua vida, em peças assinadas por Fiona Henderson. Caroline Elbert, que aparece na imagem, recorda os já idos anos 1950: nessa altura, as rapariguinhas vestiam-se como as suas mães.

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Caroline devia ser uma mulher muito bonita, a avaliar pela imagem actual do seu rosto. Só em meados dos anos 1960, quando começou a trabalhar em antiguidades na rua Portobello (Londres), é que começou a experimentar a moda. Era hippie e um pouco selvagem que adorava o brilho dos veludos, camisetas e pernas à mostra com uma bracelete no tornozelo. Já mais para o fim da mesma década, Yves Saint Laurent abria a sua primeira loja pronto-a-vestir na Bond Street, um espaço lindo. Caroline, a trabalhar numa empresa americana e mãe de duas crianças, deixou-se levar pela moda francesa. Quando, dez anos depois, viajou pela Ásia central, foi a descoberta de um outro estilo, com um casaco do Uzebesquistão, que ela usava com umas calças jeans.

O segundo recorte pertence ao Público de 20 de Março e dá conta da ModaLisboa. Isto é, enquanto a notícia de cima mostra as escolhas em termos de consumo, esta apresenta o design que aponta para um estilo de produção. Tendências românticas e etno-chic marcarão influências lá mais para o fim do ano.

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Pedro Mourão, Miguel Vieira, Nuno Gama e Osvaldo Martins foram nomes destacados na peça jornalística assinada por Maria Antónia Ascensão, em página agradável pelo seu design. Retiro só uma pequena parte do texto: “As silhuetas combinam bustos justos ao corpo com saias em balão. Mas o contrário também não é proibido”. Ou seja, tudo é possível. Das nove imagens que ilustram a página, seis pertencem a modelos femininos.

A minha pergunta: em termos de indústrias culturais, quanto é que vale o negócio da moda em Portugal?

29 Março 2005

OS JORNALISTAS TÊM MEDO DA BLOGOSFERA

Fiquei com esta sensação depois de ler, de manhã, as duas páginas do Diário de Notícias dedicadas à blogosfera. O título não é tão poderoso – “Revolução da blogosfera pode criar um novo poder” – quanto o começo do lead – “A fronteira que distingue blogues e jornalismo é cada vez mais ténue. [...] Os jornalistas estão abrangidos por legislação própria, que não cobre a blogosfera. Assim, poderão os bloguistas [blogueiros] trabalhar dados como se fossem jornalistas?”.

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A percepção mais profunda do medo que os jornalistas têm da blogosfera foi a dada na infeliz resposta do jornalista (inteligente) Ricardo Costa, director da SIC Notícias, à pergunta sobre se é importante estudar e analisar a blogosfera: “Não perco muito tempo com a blogosfera. A maior parte dos blogues não tem qualquer interesse e os que têm raramente são os que se armam em «jornalismo»”.

Todo o aparato do tema do dia do jornal, escrito por Diogo Sousa e Filipe Morais, gira em torno da relação da blogosfera e do jornalismo. Ora, aquela não é sinónima desta. É uma falácia possível dado que a profissão mais escrutinada e falada – depois dos médicos e dos militares e antes dos políticos – é a dos jornalistas. A blogosfera não é concorrente dos media tradicionais. Para não ser parcial, dou o link de um blogue de adolescentes, Destiiny, onde Jasmiine, nascido(a) a 8 de Maio de 1991, e frequentando a escola secundária de Santa Hilda, em Singapura, narra a sua vida diária, desde o levantar-se às 6:00 da manhã até aos deveres da escola e às curtas férias agora em Março. Trata-se de um diário pessoal – de um registo dos acontecimentos. Ora, Jasmiine não tem as características jornalísticas. Um blogue é isso: um diário.

Das seis fontes nomeadas nas peças que ocupam as duas páginas do Diário de Notícias, cinco são jornalistas identificados com os seus meios, exceptuando José Pedro Castanheira. Este, aliás, tem uma posição muito objectiva quanto ao que pensa que os blogues podem ser: “um sistema de vigilância à comunicação social tradicional”. Papel que desempenha na perfeição outro dos citados nas peças, João Paulo Meneses, da TSF e animador do blogue Blogouve-se. Apesar de eu compreender a bondade desse papel, se o jornalismo precisa de sistemas de vigilância isso é o fracasso da actividade.

Entre o poder dos blogues e a necessidade de bem produzir uma notícia

A principal peça do Diário de Notícias apresenta a seguinte tese: “Os blogues têm trabalhado a informação sem limites, legais e deontológicos. Podem também agir como vigilantes e censores à informação dos media. Essa capacidade pode vir a transformá-los num novo poder”.

Há, pelo menos duas questões em causa. Primeiro, a maioria dos blogues está alojada num servidor privado, a Blogger.com. Se este fechar, muitos dos blogueiros ficam sem endereço e arquivos. A minha interpretação é que isso significa ter pouco poder. Quem é o detentor do que eu escrevo? Eu? A Blogger.com? Os que me lêem e podem fazer copy and paste? A ideia que se tem de espaço público é a de liberdade e a de igualdade de força. Um jornal, que tem uma estrutura empresarial e que tem fontes próprias de receita (publicidade, leitores, uma marca) tem incomparavelmente mais poder quando comparado com um blogue.

Segundo, pode comparar-se o acesso aos media e aos blogues? Aqueles, na sequência do que escrevi atrás, têm força económica e cultural; estes, têm apenas trabalho voluntário ou funcionam como pequenos palanques egocêntricos para os seus autores. O blogue é um espaço muito individualista e não substitui outras formas de mensagens e estruturas electrónicas, como o jornalismo em linha já existente nas estruturas. Quando muito, um blogue será o equivalente às folhas volantes e anónimas de meados do século XVIII ou XIX.

Das seis fontes mencionadas, também consto do grupo – e agradeço ao jornalista que me contactou e me citou correctamente. Na conversa que mantivemos ao telefone, mais ou menos por esta hora mas ontem, eu também lhe falei de anonimato de muitos blogues, o que elimina qualquer credibilidade ao que se diz.

Curiosamente, nessa ocasião, eu estava na Biblioteca Nacional a fazer pesquisa sobre jornalistas de há cerca de um século. E esbarrei com um comentário de Acúrcio Pereira, que chegou a chefe de redacção de O Século. Na altura do acontecimento, ele trabalhava na concorrência, no Diário de Notícias. acurciopereira.jpg

Acúrcio Pereira fora encarregado de cobrir a passagem por Lisboa dos reis da Bélgica. Ele escreveu um texto de fundo e encarregou colegas dele de acompanharem os reis durante o percurso. Mas esquecera-se de mandar fazer a reportagem da saída: os reis tomariam o comboio no Rossio em direcção a Espanha, já de noite. A concorrência não se esqueceu: O Século e A Pátria tinham escalado repórteres para o trabalho. Isso obrigou-o a usar a experiência: telefonou ao ministro dos Negócios Estrangeiros, seu amigo de longa data, e procurou saber que declarações finais os reis belgas tinham feito na chegada à fronteira de Portugal com o país vizinho. O que ele publicou no seu jornal foi exactamente o que os outros jornais fizeram. É que os jornalistas da concorrência haviam também acabado de chegar a Lisboa. Concluía Acúrcio Pereira: “o que me favoreceu foi [o desejo dos] meus colegas de meterem o narizito em Espanha. Deviam ter descido no Entroncamento [...] e passar uma comunicação aos seus jornais pelo telégrafo dos Caminhos de Ferro”.

Fonte desta informação sobre Acúrcio Pereira: Oliveira, A. Lopes (1997). Nos bastidores do jornalismo. Braga: Compolito – Serviços de Artes Gráficas

29 Março 2005

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OS JORNALISTAS TÊM MEDO DA BLOGOSFERA

Fiquei com esta sensação depois de ler, de manhã, as duas páginas do Diário de Notícias dedicadas à blogosfera. O título não é tão poderoso – “Revolução da blogosfera pode criar um novo poder” – quanto o começo do lead – “A fronteira que distingue blogues e jornalismo é cada vez mais ténue. [...] Os jornalistas estão abrangidos por legislação própria, que não cobre a blogosfera. Assim, poderão os bloguistas [blogueiros] trabalhar dados como se fossem jornalistas?”.

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A percepção mais profunda do medo que os jornalistas têm da blogosfera foi a dada na infeliz resposta do jornalista (inteligente) Ricardo Costa, director da SIC Notícias, à pergunta sobre se é importante estudar e analisar a blogosfera: “Não perco muito tempo com a blogosfera. A maior parte dos blogues não tem qualquer interesse e os que têm raramente são os que se armam em «jornalismo»”.

Todo o aparato do tema do dia do jornal, escrito por Diogo Sousa e Filipe Morais, gira em torno da relação da blogosfera e do jornalismo. Ora, aquela não é sinónima desta. É uma falácia possível dado que a profissão mais escrutinada e falada – depois dos médicos e dos militares e antes dos políticos – é a dos jornalistas. A blogosfera não é concorrente dos media tradicionais. Para não ser parcial, dou o link de um blogue de adolescentes, Destiiny, onde Jasmiine, nascido(a) a 8 de Maio de 1991, e frequentando a escola secundária de Santa Hilda, em Singapura, narra a sua vida diária, desde o levantar-se às 6:00 da manhã até aos deveres da escola e às curtas férias agora em Março. Trata-se de um diário pessoal – de um registo dos acontecimentos. Ora, Jasmiine não tem as características jornalísticas. Um blogue é isso: um diário.

Das seis fontes nomeadas nas peças que ocupam as duas páginas do Diário de Notícias, cinco são jornalistas identificados com os seus meios, exceptuando José Pedro Castanheira. Este, aliás, tem uma posição muito objectiva quanto ao que pensa que os blogues podem ser: “um sistema de vigilância à comunicação social tradicional”. Papel que desempenha na perfeição outro dos citados nas peças, João Paulo Meneses, da TSF e animador do blogue Blogouve-se. Apesar de eu compreender a bondade desse papel, se o jornalismo precisa de sistemas de vigilância isso é o fracasso da actividade.

Entre o poder dos blogues e a necessidade de bem produzir uma notícia

A principal peça do Diário de Notícias apresenta a seguinte tese: “Os blogues têm trabalhado a informação sem limites, legais e deontológicos. Podem também agir como vigilantes e censores à informação dos media. Essa capacidade pode vir a transformá-los num novo poder”.

Há, pelo menos duas questões em causa. Primeiro, a maioria dos blogues está alojada num servidor privado, a Blogger.com. Se este fechar, muitos dos blogueiros ficam sem endereço e arquivos. A minha interpretação é que isso significa ter pouco poder. Quem é o detentor do que eu escrevo? Eu? A Blogger.com? Os que me lêem e podem fazer copy and paste? A ideia que se tem de espaço público é a de liberdade e a de igualdade de força. Um jornal, que tem uma estrutura empresarial e que tem fontes próprias de receita (publicidade, leitores, uma marca) tem incomparavelmente mais poder quando comparado com um blogue.

Segundo, pode comparar-se o acesso aos media e aos blogues? Aqueles, na sequência do que escrevi atrás, têm força económica e cultural; estes, têm apenas trabalho voluntário ou funcionam como pequenos palanques egocêntricos para os seus autores. O blogue é um espaço muito individualista e não substitui outras formas de mensagens e estruturas electrónicas, como o jornalismo em linha já existente nas estruturas. Quando muito, um blogue será o equivalente às folhas volantes e anónimas de meados do século XVIII ou XIX.

Das seis fontes mencionadas, também consto do grupo – e agradeço ao jornalista que me contactou e me citou correctamente. Na conversa que mantivemos ao telefone, mais ou menos por esta hora mas ontem, eu também lhe falei de anonimato de muitos blogues, o que elimina qualquer credibilidade ao que se diz.

Curiosamente, nessa ocasião, eu estava na Biblioteca Nacional a fazer pesquisa sobre jornalistas de há cerca de um século. E esbarrei com um comentário de Acúrcio Pereira, que chegou a chefe de redacção de O Século. Na altura do acontecimento, ele trabalhava na concorrência, no Diário de Notícias. acurciopereira.jpg

Acúrcio Pereira fora encarregado de cobrir a passagem por Lisboa dos reis da Bélgica. Ele escreveu um texto de fundo e encarregou colegas dele de acompanharem os reis durante o percurso. Mas esquecera-se de mandar fazer a reportagem da saída: os reis tomariam o comboio no Rossio em direcção a Espanha, já de noite. A concorrência não se esqueceu: O Século e A Pátria tinham escalado repórteres para o trabalho. Isso obrigou-o a usar a experiência: telefonou ao ministro dos Negócios Estrangeiros, seu amigo de longa data, e procurou saber que declarações finais os reis belgas tinham feito na chegada à fronteira de Portugal com o país vizinho. O que ele publicou no seu jornal foi exactamente o que os outros jornais fizeram. É que os jornalistas da concorrência haviam também acabado de chegar a Lisboa. Concluía Acúrcio Pereira: “o que me favoreceu foi [o desejo dos] meus colegas de meterem o narizito em Espanha. Deviam ter descido no Entroncamento [...] e passar uma comunicação aos seus jornais pelo telégrafo dos Caminhos de Ferro”.

Fonte desta informação sobre Acúrcio Pereira: Oliveira, A. Lopes (1997). Nos bastidores do jornalismo. Braga: Compolito – Serviços de Artes Gráficas

29 Março 2005

ENSAIO SOBRE TIPOGRAFIA

Quando vi o pequeno livro (12,5×18,7) de Eric Gill (1882-1940), Ensaio sobre tipografia, já não o deixei ficar tranquilo na estante da livraria. E pensei logo em cotejá-lo com o escrito por Susana Durão, Oficinas e tipógrafos. Cultura e quotidianos de trabalho [embora este não caiba na presente mensagem].

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No começo da nota prévia ao livro de Gill, escrito por João Bicker, lê-se: “A selecção dos textos para esta colecção tem resultado sempre de motivações emocionais. Editamos livros que amamos, autores que admiramos, textos que de alguma forma nos inspiram e influenciam. Assim aconteceu com o texto de Eric Gill”. Mais à frente, Bicker anota, a propósito da necessidade de adaptar a edição original ao formato da portuguesa: “pareceu-nos desde logo claro que o uso do Joanna, um dos mais bonitos e menos usados tipos de Gill, era inquestionável. Já o desenho da página teria que ser alterado. [...] a página mantém, contudo, algumas das suas características mais relevantes: tipo, corpo e entrelinhamento, relação com as margens, inserção e legendagem das imagens, cabeças e numeração das páginas”. A aproximação ao original justificaria o uso frequente do “&” e do “sinal.JPG“.

Nascido em Brighton (Inglaterra), desde cedo demonstrou uma inclinação para o desenho, vindo a frequentar a Central School of Arts & Crafts de Londres e, mais tarde, o Westminster Technical Institute, onde estudou gravura e lettering. Escreveu muito sobre arte, religião, política e vestuário, indica Luís Ferreira na introdução. Criou tipos (11, embora apenas um tenha o seu nome: Gill Sans) e foi designer tipográfico. O seu tipo Joanna, nome de uma das filhas, seria o usado no livro Ensaio sobre tipografia [imagem retirada do sítio Eric Gill Prints].

Escreve Eric Gill: “temos uma tradição de escrita à mão que parece dar pouca, ou nenhuma, atenção à letra impressa ou pintada [...]. A caligrafia de juízes, advogados, eclesiásticos e outros, continuaram no seu calmo percurso, sem qualquer sinal aparente de serem influenciados por aquilo que pudesse ser a moda do seu tempo” (p. 84). Logo depois, Gill estabelece uma comparação entre a escrita à mão e a impressão de placa de cobre. A moderna escrita à mão pode “sê-lo através da aplicação de um bom conhecimento da técnica de caligrafia a um conhecimento de boa impressão, & não pelo ressuscitar da caligrafia medieval” (p. 83).

O autor releva a importância das letras romanas, que “se fixaram num tipo definitivo cerca do primeiro século d.c. Embora, ao longo dos séculos, tenham sido feitas inúmeras variações de pormenor, as letras romanas, no essencial, não se alteraram. Quatrocentos anos depois do talhe da inscrição de Trajano, fizeram-se as inscrições na placa da capela de Henrique VII, e nenhum romano iria encontrar qualquer dificuldade em ler as letras” (p. 50) [na imagem seguinte, retirada do sítio Identifont, vêem-se as letras do tipo Joanna, desenhadas por Gill].

O conflito entre métodos antigos de escrita e o industrialismo, ainda salientados por Gill, chegou ao fim. Escreve ainda o mesmo autor (2003: 157-158): “”No estado actual das coisas, a caligrafia foi estragada, porque toda a gente é obrigada a garatujar. Só se usa a caligrafia, hoje, na comunicação pessoal entre amigos, e, apesar de todas as melhorias & baixas nos preços das máquinas de escrever, as pessoas terão sempre necessidade de comunicar pela escrita à mão”. Mas, o uso do computador relega cada vez mais a escrita manual para o dedilhar das teclas. Perde-se individualidade e identidade própria e ganha-se em uniformidade. As letras escritas à mão degradam-se, como as parcelas de texto escritas por mim com um intervalo de 17 anos (1988-2005). Claro que fica o lettering dos livros, da publicidade e também da internet e dos blogues.

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Leitura: Eric Gill (2003). Ensaio sobre tipografia. Coimbra: Almedina. 163 páginas, €13,50.

29 Março 2005

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ENSAIO SOBRE TIPOGRAFIA

Quando vi o pequeno livro (12,5×18,7) de Eric Gill (1882-1940), Ensaio sobre tipografia, já não o deixei ficar tranquilo na estante da livraria. E pensei logo em cotejá-lo com o escrito por Susana Durão, Oficinas e tipógrafos. Cultura e quotidianos de trabalho [embora este não caiba na presente mensagem].

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No começo da nota prévia ao livro de Gill, escrito por João Bicker, lê-se: “A selecção dos textos para esta colecção tem resultado sempre de motivações emocionais. Editamos livros que amamos, autores que admiramos, textos que de alguma forma nos inspiram e influenciam. Assim aconteceu com o texto de Eric Gill”. Mais à frente, Bicker anota, a propósito da necessidade de adaptar a edição original ao formato da portuguesa: “pareceu-nos desde logo claro que o uso do Joanna, um dos mais bonitos e menos usados tipos de Gill, era inquestionável. Já o desenho da página teria que ser alterado. [...] a página mantém, contudo, algumas das suas características mais relevantes: tipo, corpo e entrelinhamento, relação com as margens, inserção e legendagem das imagens, cabeças e numeração das páginas”. A aproximação ao original justificaria o uso frequente do “&” e do “sinal.JPG“.

Nascido em Brighton (Inglaterra), desde cedo demonstrou uma inclinação para o desenho, vindo a frequentar a Central School of Arts & Crafts de Londres e, mais tarde, o Westminster Technical Institute, onde estudou gravura e lettering. Escreveu muito sobre arte, religião, política e vestuário, indica Luís Ferreira na introdução. Criou tipos (11, embora apenas um tenha o seu nome: Gill Sans) e foi designer tipográfico. O seu tipo Joanna, nome de uma das filhas, seria o usado no livro Ensaio sobre tipografia [imagem retirada do sítio Eric Gill Prints].

Escreve Eric Gill: “temos uma tradição de escrita à mão que parece dar pouca, ou nenhuma, atenção à letra impressa ou pintada [...]. A caligrafia de juízes, advogados, eclesiásticos e outros, continuaram no seu calmo percurso, sem qualquer sinal aparente de serem influenciados por aquilo que pudesse ser a moda do seu tempo” (p. 84). Logo depois, Gill estabelece uma comparação entre a escrita à mão e a impressão de placa de cobre. A moderna escrita à mão pode “sê-lo através da aplicação de um bom conhecimento da técnica de caligrafia a um conhecimento de boa impressão, & não pelo ressuscitar da caligrafia medieval” (p. 83).

O autor releva a importância das letras romanas, que “se fixaram num tipo definitivo cerca do primeiro século d.c. Embora, ao longo dos séculos, tenham sido feitas inúmeras variações de pormenor, as letras romanas, no essencial, não se alteraram. Quatrocentos anos depois do talhe da inscrição de Trajano, fizeram-se as inscrições na placa da capela de Henrique VII, e nenhum romano iria encontrar qualquer dificuldade em ler as letras” (p. 50) [na imagem seguinte, retirada do sítio Identifont, vêem-se as letras do tipo Joanna, desenhadas por Gill].

O conflito entre métodos antigos de escrita e o industrialismo, ainda salientados por Gill, chegou ao fim. Escreve ainda o mesmo autor (2003: 157-158): “”No estado actual das coisas, a caligrafia foi estragada, porque toda a gente é obrigada a garatujar. Só se usa a caligrafia, hoje, na comunicação pessoal entre amigos, e, apesar de todas as melhorias & baixas nos preços das máquinas de escrever, as pessoas terão sempre necessidade de comunicar pela escrita à mão”. Mas, o uso do computador relega cada vez mais a escrita manual para o dedilhar das teclas. Perde-se individualidade e identidade própria e ganha-se em uniformidade. As letras escritas à mão degradam-se, como as parcelas de texto escritas por mim com um intervalo de 17 anos (1988-2005). Claro que fica o lettering dos livros, da publicidade e também da internet e dos blogues.

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Leitura: Eric Gill (2003). Ensaio sobre tipografia. Coimbra: Almedina. 163 páginas, €13,50.

28 Março 2005

AS ONDAS MÉDIAS DA RÁDIO, DE NOVO

O blogue Media Network Weblog traz hoje mais informações sobre ondas médias. Agora a propósito de Ruud Poeze, “que tem licenças de frequências em ondas médias na Holanda, começando a activá-las com transmissores de baixa potência, com testes de sinais”. Tal demonstração visa mostrar à entidade regulamentadora das comunicações daquele país que as frequências estão “em uso”. Andy, animador da Rádio Netherlands (serviço internacional holandês da BBC) e do blogue acima referido, escreve sobre os pequenos transmissores (15 watts) ligados a antenas L invertidas activados nas frequências de 1584 kHz (Utrecht) e 1557 kHz (Amsterdão). O transmissor de Amsterdão começou a operar sábado em regime de teste com um sinal de mil hertz. Em Naarden, onde vive o editor do Media Network Weblog, a 25 quilómetros da capital holandesa, o sinal chegou audível. Nos comentários à mensagem, Noel Green escreve: “Ouvi tocar «música contemporânea adulta» em [frequência] 1395 por volta das 6:30 da manhã – e ainda estou a ouvir às 10:30… Mas não há identificação”.

Parece haver uma grande excitação em volta das ondas médias da rádio para aquelas bandas da Europa. E, felizmente, não se trata de investigação histórica. Eu, por aqui, ouço a escolha da Inês Forjaz em termos da música em língua portuguesa, na Antena 2, mas em FM. Aproveito a ocasião para fazer uma saudação aos blogues A Rádio em Portugal, de Jorge Guimarães Silva, e NetFM, de Paula Cordeiro, por também terem destacado a anterior mensagem que eu colocara aqui, a 23 deste mês, apoiando-me na informação do blogue Media Network Weblog.

28 Março 2005

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AS ONDAS MÉDIAS DA RÁDIO, DE NOVO

O blogue Media Network Weblog traz hoje mais informações sobre ondas médias. Agora a propósito de Ruud Poeze, “que tem licenças de frequências em ondas médias na Holanda, começando a activá-las com transmissores de baixa potência, com testes de sinais”. Tal demonstração visa mostrar à entidade regulamentadora das comunicações daquele país que as frequências estão “em uso”. Andy, animador da Rádio Netherlands (serviço internacional holandês da BBC) e do blogue acima referido, escreve sobre os pequenos transmissores (15 watts) ligados a antenas L invertidas activados nas frequências de 1584 kHz (Utrecht) e 1557 kHz (Amsterdão). O transmissor de Amsterdão começou a operar sábado em regime de teste com um sinal de mil hertz. Em Naarden, onde vive o editor do Media Network Weblog, a 25 quilómetros da capital holandesa, o sinal chegou audível. Nos comentários à mensagem, Noel Green escreve: “Ouvi tocar «música contemporânea adulta» em [frequência] 1395 por volta das 6:30 da manhã – e ainda estou a ouvir às 10:30… Mas não há identificação”.

Parece haver uma grande excitação em volta das ondas médias da rádio para aquelas bandas da Europa. E, felizmente, não se trata de investigação histórica. Eu, por aqui, ouço a escolha da Inês Forjaz em termos da música em língua portuguesa, na Antena 2, mas em FM. Aproveito a ocasião para fazer uma saudação aos blogues A Rádio em Portugal, de Jorge Guimarães Silva, e NetFM, de Paula Cordeiro, por também terem destacado a anterior mensagem que eu colocara aqui, a 23 deste mês, apoiando-me na informação do blogue Media Network Weblog.

28 Março 2005

BLOGUES: A EXPERIÊNCIA PORTUGUESA SEGUNDO HUGO NEVES DA SILVA

Os blogues, que existem há pouco mais de sete anos, passaram de um fenómeno passageiro para objecto de estudo, como constatou Hugo Neves da Silva em trabalho de módulo do mestrado em Ciências da Comunicação (Universidade Católica), e disponível na totalidade no seu blogue lisbonlab.

Investigação empírica

O autor do estudo optou por consultar a página blogómetro do sítio o Weblog.com.pt, que “apresenta a lista dos blogues mais visitada no dia anterior”. Ele constituiu como amostra a selecção dos cem blogues mais visitados no dia 19 de Janeiro de 2005, a quem enviou um questionário. Obteve 99 respostas ao questionário (99%).

Das respostas, concluiu que 26,3% dos blogues foram criados em 2004 e 41,4% em 2003. Em termos de classificação, 20,2% dos blogues não são classificados em nenhuma categoria particular, mas 14,1% tem uma orientação pessoal, 9,1% pertencem à categoria de humor, 7,1% a política e 5,1% simultaneamente a comentários e sexo. Quanto a actualização, a esmagadora maioria dos blogueiros (85,9%) afirma escrever nos seus blogues pelo menos uma vez por dia, sendo que 26,3% afirma executá-lo várias vezes por dia. A maioria dos blogueiros (76,8%) gasta mais de 30 minutos por dia para as actualizações do seu blogue, enquanto 27,3% afirma precisar de uma hora diária, 14,1% entre uma hora e 2 horas e 5,1% mais de 2 horas.

Uma das principais características dos blogues é permitirem que os seus leitores escrevam comentários. Questionados sobre a frequência com que lêem os comentários introduzidos nos seus blogues, 89,9% dos seus editores afirmam lerem-nos diariamente, sendo que 44,4% o fazem várias vezes por dia. Se 10,1% dos blogueiros não respondem aos comentários colocados nos seus posts, 37,4% afirmam responder ocasionalmente, 31,3% frequentemente e 18,2% respondem a todos os comentários colocados. Por outro lado, tendo em conta o espírito de comunidade dos blogues, 97% dos blogueiros apresentam-se como leitores assíduos de outros blogues, sendo que 79,8% afirma comentar posts de outros blogues. Nesta perspectiva, a maioria dos blogueiros (64%) despendem mais de uma hora nas leituras e possíveis comentários a outros blogues.

blogotinha.jpgSegundo os resultados deste estudo, 76% dos blogueiros consideram os blogues generalistas e apenas 24% os consideram temáticos. Quanto a blogues preferidos por cada um dos editores desta forma nova de comunicação, elencaram Blasfémias, Blogotinha, Gato fedorento, Terceiro anel, Os tempos que correm e Webcedário.

A maioria dos participantes neste estudo é blogueiro há pelo menos 1 ano e 28,3% há pelo menos 2 anos. Relativamente à causa que os levou a iniciarem-se nestas lides, 44,4% dos blogueiros apontam os amigos e 18,2% a leitura de jornais, sendo que 31,3% não se identifica com as causas referenciadas neste estudo, afirmando ter sido outra a causa para terem começado a blogar. Apesar de 41,4% dos blogueiros indicarem apenas participar como editor num blogue, a maioria (57,6%) é editor de no mínimo 2 blogues, sendo que 27,3% afirma participar em 2 blogues, 19,2% em 3 blogues, 2% em 4 blogues, 5,1% em 5 e 4% em mais do que 5 blogues. A esmagadora maioria dos blogueiros, 92,9% considera que os blogues não são um fenómeno passageiro, mas algo que veio para ficar por muitos e longos anos.

28 Março 2005

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BLOGUES: A EXPERIÊNCIA PORTUGUESA SEGUNDO HUGO NEVES DA SILVA

Os blogues, que existem há pouco mais de sete anos, passaram de um fenómeno passageiro para objecto de estudo, como constatou Hugo Neves da Silva em trabalho de módulo do mestrado em Ciências da Comunicação (Universidade Católica), e disponível na totalidade no seu blogue lisbonlab.

Investigação empírica

O autor do estudo optou por consultar a página blogómetro do sítio o Weblog.com.pt, que “apresenta a lista dos blogues mais visitada no dia anterior”. Ele constituiu como amostra a selecção dos cem blogues mais visitados no dia 19 de Janeiro de 2005, a quem enviou um questionário. Obteve 99 respostas ao questionário (99%).

Das respostas, concluiu que 26,3% dos blogues foram criados em 2004 e 41,4% em 2003. Em termos de classificação, 20,2% dos blogues não são classificados em nenhuma categoria particular, mas 14,1% tem uma orientação pessoal, 9,1% pertencem à categoria de humor, 7,1% a política e 5,1% simultaneamente a comentários e sexo. Quanto a actualização, a esmagadora maioria dos blogueiros (85,9%) afirma escrever nos seus blogues pelo menos uma vez por dia, sendo que 26,3% afirma executá-lo várias vezes por dia. A maioria dos blogueiros (76,8%) gasta mais de 30 minutos por dia para as actualizações do seu blogue, enquanto 27,3% afirma precisar de uma hora diária, 14,1% entre uma hora e 2 horas e 5,1% mais de 2 horas.

Uma das principais características dos blogues é permitirem que os seus leitores escrevam comentários. Questionados sobre a frequência com que lêem os comentários introduzidos nos seus blogues, 89,9% dos seus editores afirmam lerem-nos diariamente, sendo que 44,4% o fazem várias vezes por dia. Se 10,1% dos blogueiros não respondem aos comentários colocados nos seus posts, 37,4% afirmam responder ocasionalmente, 31,3% frequentemente e 18,2% respondem a todos os comentários colocados. Por outro lado, tendo em conta o espírito de comunidade dos blogues, 97% dos blogueiros apresentam-se como leitores assíduos de outros blogues, sendo que 79,8% afirma comentar posts de outros blogues. Nesta perspectiva, a maioria dos blogueiros (64%) despendem mais de uma hora nas leituras e possíveis comentários a outros blogues.

blogotinha.jpgSegundo os resultados deste estudo, 76% dos blogueiros consideram os blogues generalistas e apenas 24% os consideram temáticos. Quanto a blogues preferidos por cada um dos editores desta forma nova de comunicação, elencaram Blasfémias, Blogotinha, Gato fedorento, Terceiro anel, Os tempos que correm e Webcedário.

A maioria dos participantes neste estudo é blogueiro há pelo menos 1 ano e 28,3% há pelo menos 2 anos. Relativamente à causa que os levou a iniciarem-se nestas lides, 44,4% dos blogueiros apontam os amigos e 18,2% a leitura de jornais, sendo que 31,3% não se identifica com as causas referenciadas neste estudo, afirmando ter sido outra a causa para terem começado a blogar. Apesar de 41,4% dos blogueiros indicarem apenas participar como editor num blogue, a maioria (57,6%) é editor de no mínimo 2 blogues, sendo que 27,3% afirma participar em 2 blogues, 19,2% em 3 blogues, 2% em 4 blogues, 5,1% em 5 e 4% em mais do que 5 blogues. A esmagadora maioria dos blogueiros, 92,9% considera que os blogues não são um fenómeno passageiro, mas algo que veio para ficar por muitos e longos anos.

28 Março 2005

GOODBYE DRAGON INN

É a última sessão num velho cinema de Taiwan. O jovem que entra encontra a sala quase vazia. Mas, por vezes, vêem-se pessoas (ou serão fantasmas?): um jovem casal que come algo ruidosamente, uma rapariga que tira os sapatos, espectadores que fumam, alguns velhos, uma criança. Elas mudam de sítio ou deambulam pelo edifício do cinema. A história anda também à volta de dois empregados do cinema, a arrumadora e o projeccionista. Ela aproxima-se da cabina de projecção, mas não o encontra, como sempre. Deixa-lhe parte da sua refeição, após o que deambula pelo edifício labiríntico do cinema. No ecrã, passa um filme realizado 36 anos antes, Dragon Inn, cuja acção lembra o kung-fu e os filmes de artes guerreiras antigas no Oriente [imagens retiradas do sítio WELLSPRING].

GoodbyeDragonInn1.JPG

Nascido na Malásia, o realizador do filme, Tsai Ming-Liang, instalou-se em Taiwan no ano de 1977. Em 1981, concluia um grau universitário de arte dramática na Universidade de Cultura Chinesa. Tornou-se autor de teatro e trabalhou para a televisão (telefilmes).

GoodbyeDragonInn3.jpgOs trabalhos deste mestre de geometria, como lhe chamou A. O. Scott, o crítico de cinema do New York Times, andam à volta da sociedade actual, da solidão e dos estilos de vida urbana frenética. Mas a mim parece-me mais do que isso.Tsai Ming-Liang usa igualmente a harmonia nos enquadramentos, as sombras das personagens projectadas no chão, o som da queda dos pingos da água dentro de baldes, o andar da arrumadora, que coxeia, em especial quando ela sobre uma escada metálica, produzindo sons diferentes consoante o pé. Os diálogos são raríssimos e não têm uma sequência na acção – a palavra é menos importante que a imagem (quase sempre com câmara parada, em posição semelhante à de um espectador numa sala) e o som dos movimentos das personagens, mostrando a alienação e o tédio da vida urbana.

Há uma homenagem aos actores e actrizes que caem no esquecimento e aos cinemas que morrem. O espectador que chora é Tien Miao, actor do filme em exibição dentro do filme, Dragon Inn. Na minha história pessoal, lembro-me de desaparecerem salas onde formei e apurei o meu conhecimento cinematográfico, como o Trindade, no Porto, e o Mundial, em Lisboa.

28 Março 2005

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GOODBYE DRAGON INN

É a última sessão num velho cinema de Taiwan. O jovem que entra encontra a sala quase vazia. Mas, por vezes, vêem-se pessoas (ou serão fantasmas?): um jovem casal que come algo ruidosamente, uma rapariga que tira os sapatos, espectadores que fumam, alguns velhos, uma criança. Elas mudam de sítio ou deambulam pelo edifício do cinema. A história anda também à volta de dois empregados do cinema, a arrumadora e o projeccionista. Ela aproxima-se da cabina de projecção, mas não o encontra, como sempre. Deixa-lhe parte da sua refeição, após o que deambula pelo edifício labiríntico do cinema. No ecrã, passa um filme realizado 36 anos antes, Dragon Inn, cuja acção lembra o kung-fu e os filmes de artes guerreiras antigas no Oriente [imagens retiradas do sítio WELLSPRING].

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Nascido na Malásia, o realizador do filme, Tsai Ming-Liang, instalou-se em Taiwan no ano de 1977. Em 1981, concluia um grau universitário de arte dramática na Universidade de Cultura Chinesa. Tornou-se autor de teatro e trabalhou para a televisão (telefilmes).

GoodbyeDragonInn3.jpgOs trabalhos deste mestre de geometria, como lhe chamou A. O. Scott, o crítico de cinema do New York Times, andam à volta da sociedade actual, da solidão e dos estilos de vida urbana frenética. Mas a mim parece-me mais do que isso.Tsai Ming-Liang usa igualmente a harmonia nos enquadramentos, as sombras das personagens projectadas no chão, o som da queda dos pingos da água dentro de baldes, o andar da arrumadora, que coxeia, em especial quando ela sobre uma escada metálica, produzindo sons diferentes consoante o pé. Os diálogos são raríssimos e não têm uma sequência na acção – a palavra é menos importante que a imagem (quase sempre com câmara parada, em posição semelhante à de um espectador numa sala) e o som dos movimentos das personagens, mostrando a alienação e o tédio da vida urbana.

Há uma homenagem aos actores e actrizes que caem no esquecimento e aos cinemas que morrem. O espectador que chora é Tien Miao, actor do filme em exibição dentro do filme, Dragon Inn. Na minha história pessoal, lembro-me de desaparecerem salas onde formei e apurei o meu conhecimento cinematográfico, como o Trindade, no Porto, e o Mundial, em Lisboa.

28 Março 2005

LEITURAS E APONTAMENTOS

Os apontamentos e leituras deste post apontam para questões de educação e moral (videojogos), tecnologias (televisão digital), cultura (CD-ROM do Expresso) e lixo mediático (televisão e blogues).

1) Hillary Clinton e a violência nos videojogos

O Sunday Times de 27 de Março chama a atenção para a violência dos videojogos. Desta feita, aproveita uma condenação feita por Hillary Clinton ao jogo Grand Theft Auto. Segundo a notícia, a antiga primeira dama americana e actual senadora democrata considera que o jogo encoraja os jogadores, em especial as crianças, a “terem relações sexuais com prostitutas e a matá-las depois”. Ela entende estar-se perante uma epidemia silenciosa dos media, de perda de sensibilidade para com mulheres, pessoas de etnia diferente ou estrangeiros.

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Hillary juntou-se a dois senadores republicanos, os quais querem que se faça uma investigação ao impacto dos media electrónicos nas crianças, em termos de desenvolvimento cognitivo, social, emocional e físico das mesmas. Calcula-se um custo de 90 milhões de dólares. A mulher do antigo presidente Clinton lançou o desafio em simpósio promovido pela Kaiser Family Foundation, que estuda os hábitos de leitura das crianças. A última pesquisa demonstra que o uso diário de jogos vídeo e de computador pelas crianças duplicou desde 1999. Os jogos violentos são os favoritos entre os rapazes.

2) Campanha para a televisão digital terrestre em França

lemonde2632005.jpgConforme o Le Monde de 26 de Março, arranca no dia 31 a campanha de publicidade a anunciar o lançamento da televisão digital terrestre (TDT) nesse mesmo dia. A campanha liga o digital (numérico, em francês) a modernidade e simplicidade.

A Leo Burnett-Paris, agência publicitária encarregada da operação, produziu um slogan que diz “a vossa televisão por zero cêntimos por mês”, pondo de relevo um ponto forte da TDT: a gratuitidade, com acesso a 14 canais digitais, dos quais oito são novos. Isto significa, para os desenhadores da campanha, que a TDT não é tão só um serviço mas uma nova idade da televisão. Diz o presidente da agência publicitária: “A palavra digital produz uma associação com a fotografia digital; mas, no caso da televisão, apenas um quarto dos telespectadores optou pela oferta digital. Assim, deve falar-se de revolução digital”.

3) Expresso – CD-ROM de Abril

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Como de costume, filmes, música, espectáculos, livros, exposições, desporto, crianças e videojogos fazem parte do menu do CD-ROM que acompanhou a última edição do Expresso. Da muita oferta cultural, saliento a festa da música, anunciada para o CCB (22 a 24 de Abril, em torno de Beethoven e os seus amigos) e a exposição da colecção Berardo, no mesmo CCB.

Nota não muito agradável: não se consegue saltar a publicidade da Optimus, quando se acede ao CD-ROM.

4) Quinta das celebridades II

quintacelebridades.jpgAinda não vi qualquer sessão da nova Quinta das celebridades, mas tenciono passar pelo programa da TVI. Enquanto não faço o trabalho de casa, faço minhas as palavras de Carla Hilário Quevedo que escreve com a elegância do costume sobre o programa (Expresso, 25 de Março):

“Participam Elsa Raposo, Lili Caneças, Capitão Roby, um actor, outro actor, um cantor, uma engenheira alimentar, Rute Marques, Arlinda Mestre, uma rapariga grande, um treinador de futebol e Gonçalo da Câmara Pereira. À medida que o programa avança, vou escolhendo os meus favoritos. Lili, que faz de José Castelo Branco, que por sua vez já fazia de Lili, já ganhou! Meia hora depois, Arlinda Mestre é a minha favorita de sempre e não se fala mais nisso. Só se Elsa Raposo e a «criança grande que tem dentro dela» não participassem. Finalmente, decido: Gonçalo da Câmara Pereira. Não. Talvez José Pedro Vasconcelos, metido no tanque, descalço, a morrer de frio”.

Pelas hesitações da também blogueira [bomba inteligente], vejo que estou a perder um grande programa!

Observação: a fotografia nos mupis com o conjunto dos habitantes da quinta é sofrível, para não ser mais radical. Olhando para ela, surge-nos um conjunto de fantasmas, com rostos pálidos e cheios de esgares, apesar dos sorrisos. Pela imagem, o programa não vai divertir mas ser campo de ajuste psicológico de contas com o passado. Uma das revistas que cobre o programa já fala do apoio da filha do “capitão” Roby, que enfrenta uma doença. Ou seja: as publicações cor-de-rosa e das fofocas lideram as narrativas do reality-show-parente-de-novela.

5) Será Lisa Hilton a blogueira de Belle de Jour?

Para o Sunday Times de 27 de Março, parece estar descoberta a identidade da blogueira Belle de Jour, diário de uma suposta prostituta. No começo do seu blogue, a miss de Jour explicara que começara a fazer sexo antes de discutir poesia francesa com o seu amante. Sob as iniciais LH, a autora (?) escrevia que o blogue era um veículo apropriado para falar das suas frustrações em termos pessoais e profissionais. No post de 7 de Março último, aparece uma mensagem de um português (José), que referencia a blogueira como tendo habilitações universitárias, com acento inglês (estudou em Londres há muitos anos) mas vivendo em Nova Iorque. Ora, LH – ou melhor, a escritora Lisa Hilton – tem estas características.

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O Sunday Times, jornal que mistura perspectivas conservadoras com algum sensacionalismo, dá destaque ao tema com mais de meia página no seu formato broadsheet, retomando, aliás, notícias de outras semanas. Belle de Jour foi o título de um filme com Catherine Deneuve, que fazia de mulher de família à noite mas mantinha aventuras sexuais durante o dia.

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