E AGORA, LUÍS?
No passado dia 16, Luís António Santos editava um postal no seu blogue Atrium sobre a capa do jornal Público desse dia. Razão: o destaque dado à estreia do filme King Kong, e que eu aproveitei para escrever um texto no dia 21.
Hoje, coube a vez ao Diário de Notícias, que aposta, no corpo central da primeira página, no filme português Odete. Parece-me que, em discussão, estão os mesmos pressupostos que os desencadeados por Luís António Santos há quase meio mês. Porquê tanto espaço na primeira página a um filme? Ocupa o espaço central e tem uma fotografia a toda a largura da página (12,4 x 25,3 centímetros). Aqui, aplica-se o emprego da perspectiva e da regra de ouro da pintura renascentista: o nosso olhar vai directo para a rapariga sentada, dentro de uma casa de banho, e calçada com uns patins. Do trailer passado nos cinemas, percebe-se a angústia de Odete, “a princípio, uma personagem leve, meia pop. E o filme vai enegrecendo” (da entrevista de João Pedro Rodrigues a Nuno Galopim, no jornal de hoje).
Só depois do impacto da leitura visual da imagem em si, é que o nosso olhar se prende nos outros destaques: a perda do poder de compra dos quadros do Estado e os bebés portugueses que nascem em Badajoz. E um pequeno destaque em baixo e à direita remete-nos para o tema do dia (o mercado dos livros, o boom das pequenas editoras e as vendas pela internet), que ocupa duas páginas, mais do que a análise ao filme português (quase página e meia).
Há, nitidamente, uma vontade de preencher a primeira página com outros temas que os habituais (futebol, campanha política para as presidenciais), numa altura em que a frequência anual das salas de cinema está a baixar e também caem as vendas de jornais, como o próprio Diário de Notícias (neste caso, por aumento dos gratuitos, o que obrigará a reorientações do negócio).
O filme, pelo que é possível ver no trailer, aborda um tema complexo a nível do relacionamento de jovens casais envolvendo os dois sexos. Aliás, o título do destaque, para além do nome do filme, é “O cinema português em versão hipersexual” (não sei muito bem o significado último desta palavra). Tal poderá quer dizer da importância dada pelo jornal em termos de discussão de mudanças de comportamentos (gostemos ou não deles). Ou seja, estamos para além da leitura do simples entretenimento que um filme como o King Kong nos proporciona, e que o Luís António Santos expressou com muito calor.