
Decorre no próximo dia 5, pelas 22:00, a projecção do filme Tão perto / tão longe, no âmbito do programa Gulbenkian Distância e Proximidade. No anfiteatro ao ar livre. São oito filmes encomendados a vários realizadores.
DISTÂNCIA E PROXIMIDADE EM FILME
O LIVRO IMPRESSO ESTÁ CONDENADO, DIZ JEFF GOMEZ

O livro de Jeff Gomez (2008), Print is dead, tem um subtítulo Books in our digital age, o que denota, a meu ver, a sua ambiguidade no modo de olhar os livros. Por um lado, o impresso está morto (ou impressão, ou imprensa, o que também incluiria jornais e outras publicações). Por outro, apesar dos livros em papel parecerem condenados, Gomez fala de livros na época do digital.
Gomez começou por ser escritor, mas está ligado à consultadoria de editoras desde 1999. Tem um blogue com o título do livro, Print is Dead, onde escreve com regularidade. Olhando as três partes do seu livro – parem com o impresso, totalmente ligado (pela electrónica e internet) e dizer adeus ao livro -, tem-se o pano de fundo: o livro de papel está a ficar um objecto para coleccionador pois as formas electrónicas estão a tornar-se hegemónicas.
Para isso, Gomez fala em gerações, a dos mais velhos ainda apegados ao papel, a dos mais novos que navegam e recolhem toda a informação da internet. Para esta geração mais nova, Gomez é simpático, chamando-a de, simultaneamente, geração do download e do upload. Ou seja, para além de descarregarem gratuitamente a informação da internet, a nova geração é produtora de conteúdos. A geração download é a que transformou o negócio da música, caso do Napster (1999), que pulverizou as grandes etiquetas e os direitos de autor, e do iPod (2001), máquina que guarda centenas ou milhares de músicas numa só memória; a geração upload é a que fez o sucesso do YouTube (2005), em que o revolucionário não foi ver vídeos de curta duração na internet mas tornar os consumidores os próprios produtores de clips. Logo, a geração internet tem 10 anos de actividade; podemos dizer que são os jovens de cerca de 20 anos de idade actualmente.
O autor californiano, a viver actualmente em New Jersey (Estados Unidos), escreve sobre cultura de computador e cultura de clip, numa grande admiração tecnológica, que até inclui os blogues, pelo que o possa integrar na corrente do determinismo tecnológico. Aliás, ele cita com alguma abundância Marshall McLuhan mas nunca refere John B. Thompson (Books in the digital age, 2005), por exemplo.
Como consultor de empresas de livros, diz que os jovens não lêem livros ou jornais em papel porque têm essa informação no formato digital. Em boa verdade, ele reconhece os fracassos do eBook e do CD-ROM, como falsos pontos de arranque do sucesso da leitura digital. E, nas páginas finais (pp. 187-191), apresenta cinco conselhos que indicam que o livro em papel vai continuar a existir, entre os quais escreve que os editores continuarão a ser os caçadores de talentos e aconselhar a gerir carreiras, há necessidade de exposição formal por parte de editores e livreiros, as comunidades online apoiam a formação de leitores.
Leitura: Jeff Gomez (2008). Print is dead. Books in our digital age. Londres, Nova Iorque, Melburne e Hong Kong: MacMillan, 221 páginas
TOLDOS DA GULBENKIAN
A Gulbenkian convidou 14 artistas que conceberam desenhos sobre um caminho do jardim, posteriormente estampados em tecido. Os artistas são: António Sérgio Moreira (S. Salvador da Baía), Celestino Mudaulane (Maputo), Francisco Vidal (Lisboa), Gabi Jiménez (Marines), Hakam Gursoytrak (Istambul), Kenya Evans (Houston), Marisa Vinha (Lisboa), Nuno Valério (Lisboa), Philomena Francis (Londres), Rosana Paulino (S. Paulo), Santiago Cucullu (Milwaulkee), Sergio Vega (Gainesville), Yonamine (Luanda) e Wilson Shieh (Hong Kong).
SERÁ QUE O LIXO DOS TABLÓIDES PERTENCE AO PASSADO?
Imagine que as novas celebridades dos tablóides não eram estrelas de Hollywood como Britney Spears ou Paris Hilton mas sim políticos como Barack Obama e a sua mulher Michelle. Isto é, os tablóides a cobrirem a esfera pública e política, o que traria uma forte atenuação da linha entre política e fofoca.
Os especialistas falam de fatiga e cansaço de ler sempre sobre as mesmas personalidades, pois há um número muito pequeno de celebridades que interessam às pessoas (a socialite Hilton não diz nada a ninguém, a não ser pelo riso provocado pelas suas extravagâncias a roçar a imbecilidade).
A ideia dos tablóides tratarem de outros assuntos surgiu do interesse genuíno da cobertura das eleições presidenciais nos Estados Unidos, escrevia ontem Alisa Zykova no Editors Weblog. Foi o caso da entrevista de Barack Obama no sítio do US Weekly em Março, que teve 253 % mais visitantes do que uma notícia em média. Elizabeth Bird, antropóloga da University of South Florida, especializada em cultura popular e media e que eu já referi aqui algumas vezes, diz que é natural que as pessoas olhem os candidatos políticos como celebridades durante as eleições e que o público em geral esteja cansado das histórias das Paris Hilton deste mundo.
Conclui Alisa Zykova, que eu sigo de perto, que se trata, contudo, de uma perspectiva optimista, considerando o contínuo sucesso do conteúdo típico dos tablóides.
PT COM TELEVISÃO DIGITAL TERRESTRE
A Portugal Telecom (PT) classificou-se no primeiro lugar do concurso para a plataforma de canais pagos na Televisão Digital Terrestre (TDT), nas componentes técnica, financeira e qualidade de conteúdos televisivos. Além da PT, estava em concurso a Airplus.
Vai ser interessante ver a evolução do processo nos próximos meses e anos, pois a TDT é um sistema digital de televisão a concorrer com a televisão por cabo, pertencente à ZON, até há pouco PT Multimedia, uma subsidiária da PT. Até agora juntas, a concorrência promete. Esperemos que saiam beneficiados os consumidores, nos preços e na qualidade do serviço e dos conteúdos.
GESTÃO DOS MEDIA

Saíu agora a newsletter referente a Junho do Media Management and Transformation Centre (MMTC), da Jönköping International Business School (Suécia). Temas de capa: 1) produção nacional da música afectada pela exposição mediática, pela dimensão do mercado e pela proximidade cultural da música de outros países (comunicação apresentada em Lisboa), 2) entrada de novos docentes especializados em publicidade e gestão dos media naquela escola.
Outros assuntos: 1) necessidade de mudar o modelo organizacional das organizações jornalísticas (Robert Picard), 2) o que se deve aprender com o declínio das indústrias de imprensa, 3) abertura de um centro do MMTC na Universidade Tsinghua em Beijing, China, 4) novas publicações de docentes daquela escola sueca, nomeadamente o livro de Lucy Küng Strategic management in the media.
COMÉRCIO DE RUA
Na edição de ontem, o Jornal de Notícias destacava um texto sobre comércio de rua, assinado por Nuno Miguel Ropio e citando um estudo realizado pela Cushman & Wakefield, O comércio de rua em Lisboa e Porto.

Pelo texto, fica-se a perceber que há um processo de revitalização do comércio nas áreas históricas das duas cidades e em algumas zonas emblemáticas como a Avenida da Liberdade (Lisboa) e Boavista (Porto). As marcas internacionais têm comprado áreas comerciais para aí colocarem as suas lojas, o que significa mais movimento, mais clientes e áreas mais prósperas. Uma das zonas que está a recuperar é o Chiado, como se pode constatar quando por lá se passa.
Uma das autoras do estudo diz que se está a passar de um comércio antiquado e retrógrado para um em que predominam as grandes marcas. Comparando as duas cidades, o plano de revitalização urbana e social está a ter um efeito mais positivo no Porto. O alargamento de horários é uma das grandes dificuldades em alargar mais a competitividade das zonas históricas relativamente às grandes superfícies.
SOBRE JOÃO PAULO MENESES
Na semana passada, João Paulo Meneses, do Blogouve-se, escreveu:
- Cinco anos depois, acabou. O Blogouve-se faz, por estes dias, cinco anos. … e há muito que pensava aproveitar os cinco anos do Blogouve-se para um ‘ponto da situação’; para repensar o trabalho realizado, para encontrar, eventualmente, um sentido para continuar – tudo tem de ter um fim, certo? A necessidade de, nos próximos três meses, ter de concluir a minha tese de doutoramento (pedi, inclusivamente, uma licença sem vencimento na TSF), iria fazer-me afastar desta realidade nesse período de tempo. Seria inevitável. Poderia voltar a seguir, mas haveria sempre uma paragem. [...] Cinco anos a escrever todos os dias não se extinguem sem uma ponta de emoção. Mas também com um agradecimento, sobretudo aos que me fizeram seguir em frente com este projecto.
João Paulo Meneses, autor do livro Tudo o que passa na TSF, pretexto inicial para uma troca regular de contactos entre ele e este Indústrias, considerando-o um leitor atento. Do João Paulo, aproveitei a ideia de traduzir postal do inglês post (mensagem). Desejo boa sorte neste seu momento da vida.
LEGISLAÇÃO SOBRE PLURALISMO E NÃO CONCENTRAÇÃO NOS MEDIA

A proposta de lei do pluralismo e não concentração nos meios de comunicação social “determina um limite para as licenças e para o share de audiências e circulação, o que influencia concursos”, lê-se no texto assinado por Inês Sequeira no Público de hoje.
Essa proposta inclui o seguinte:
- Exposição de Motivos (p. 4): A intervenção do regulador dos media [ERC] encontra-se aqui, mais uma vez, perfeitamente balizada: depois de registar, de acordo com instrumentos de aferição reconhecidos no meio, a obtenção, por uma mesma empresa, e num período de seis meses, de quotas de circulação ou audiência iguais ou superiores a 50% num dado universo de referência (taxativamente, o universo de referência das publicações periódicas de informação geral, de âmbito nacional e os universos de referência dos serviços de programas radiofónicos ou televisivos, generalistas e temáticos informativos, de âmbito nacional e regional), ou iguais ou superiores a 30% em mais do que um desses universos, a ERC inicia um procedimento de averiguação. Este pode compreender, em síntese, três fases: a) notificação da empresa para que demonstre, querendo, com base nos indicadores legais, e não obstante a obtenção das referidas quotas, a inexistência de perigo para o pluralismo ou independência; b) notificação da empresa para que apresente, querendo, proposta de preenchimento dos indicadores de pluralismo e independência cuja ausência tiver sido assinalada pela entidade reguladora e forma da sua execução; c) aplicação das medidas de salvaguarda do pluralismo e da independência enumeradas na lei, como a proibição de aquisição de novos órgãos de comunicação social ou a proibição de candidaturas a novos títulos habilitantes para o exercício de actividades de rádio ou de televisão.
Artigo 14.º: Em qualquer caso, nenhuma pessoa singular ou colectiva pode deter, directa ou indirectamente: a) Um número de licenças de serviços de programas televisivos de âmbito local superior a 30% do número total das licenças atribuídas no conjunto do território nacional; b) Um número de licenças de serviços de programas radiofónicos de âmbito local superior a 30% do número total das licenças atribuídas no conjunto do território nacional.
Artigo 21.º: o cumprimento das obrigações legais relativas ao pluralismo e à independência, nomeadamente: a) Existência de expressão e confronto das diversas correntes de opinião; b) Respeito pelo direito de constituição de conselhos de redacção ou por outrasformas legítimas de intervenção dos jornalistas na respectiva orientação editorial; c) Existência de mecanismos de salvaguarda da independência dos jornalistas edirectores; d) Respeito pelo exercício do direito de resposta ou de rectificação.
Inês Sequeira escreve que
- O grupo Renascença (RFM, Rádio Renascença e Mega FM) registou 41,5 por cento de share de audiência no primeiro trimestre de 2008, valores próximos daqueles que obteve durante o ano passado, pelo que se aproxima da fasquia mínima de 50 por cento do mercado a partir da qual a ERC seria obrigada a abrir um procedimento de averiguação, caso a proposta de lei venha a ser aprovada tal como está. Em causa estão as normas do actual projecto que averiguam os poderes de influência das empresas de comunicação social, que se baseiam no valor médio de audiências ou de circulação média por edição atingido no espaço de um semestre (50 por cento ou mais do respectivo mercado relevante ou 30 por cento no mínimo em dois ou mais mercados) para determinar se estas podem ser objecto de medidas de salvaguarda. Os mercados relevantes que para já estão previstos, no que respeita a esta parte do diploma, são as publicações periódicas de informação geral de âmbito nacional, os serviços de programas de rádio de âmbito regional e nacional e os serviços de programas televisivos de âmbito regional e nacional.
Por seu lado, a Associação Portuguesa de Radiodifusão, no seu Fax Informativo nº 552 – 23 de Junho de 2008, e pela voz do seu presidente, José Faustino, indica que “temos praticamente concluída a revisão da nossa própria proposta de alteração da Lei da Rádio que brevemente entregaremos ao Governo”. Partindo da base da proposta governamental, presumo que hoje, quinta-feira, a Direcção da APR, com audiência agendada com o Ministro dos Assuntos Parlamentares, tenha entregue essa proposta.
LIVRO DE JOAQUIM FIDALGO É APRESENTADO EM ESPINHO
BARBIE ZELIZER EM PORTUGAL
Barbie Zelizer (docente da Annenberg School for Communication, da Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos) vai proferir uma conferência na Universidade Católica Portuguesa. Intitulada Reporting War, ela decorrerá no dia 30 de Junho (9:00/13:00), na Sala Brasil, Piso 1, Edifício da Biblioteca João Paulo II , naquela universidade.
Da parte da tarde (14:30/16:30), e no mesmo local, haverá lugar a uma mesa redonda intitulada Journalism, War and Media Incitement, com Isabel Capeloa Gil (Universidade Católica), Cândida Pinto, José Manuel Rosendo e Amir Sagie.
Trata-se de realizações integradas na Summer School Politics, Law and Security Policies in the European Union, organizada em conjunto pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa e Faculdade de Direito da mesma universidade com a Georgetow University, Washinghton D.C. (Estados Unidos).
A conferência e a mesa redonda estão abertas ao público em geral.
MARATONA DE FOTOGRAFIA DIGITAL DE ALFAMA
Organizada pela Associação do Património e da População de Alfama (Lisboa), a segunda edição da Maratona de Fotografia Digital de Alfama realiza-se no próximo dia 28 de Junho e é subordinada ao tema Alfama Ponto de Encontro.
O período de inscrição encerra amanhã. Os interessados podem dirigir-se ao Museu do Fado (Largo do Chafariz de Dentro 1, Lisboa, das 10:00 às 17:30 ou telefone 218823470) ou preencher o Formulário Online em www.app-alfama.org.
RENOVAÇÃO GRÁFICA DO SUNDAY TIMES
A partir de 6 de Julho, o Sunday Times (ST) apresentar-se-á com a totalidade das páginas a cores, um novo tipo de letra e um novo slogan (The Sunday Times is my Sunday papers). Já na próxima semana, começará uma campanha de publicidade na televisão.
Ao mesmo tempo, o ST terá blogues com os colunistas mais importantes. Como parte da renovação, os colunistas deixam a página dos Comentários e passam para a página 2, questão que significa a renovada importância do comentário político, económico ou cultural no jornal.
O redesign vai custar 650 milhões de libras de investimento. Rupert Murdoch é o proprietário da News International, que publica o Times, Sunday Times e o Sun.
Fonte: Editors Weblog.
INSCRIÇÕES PARA O FESTIVAL DO RIO DE JANEIRO
Estão abertas, até 31 de Julho, as inscrições para a Première Brasil do Festival do Rio 2008, a decorrer entre 25 de Setembro e 9 de Outubro.
Os filmes seleccionados para a Première Brasil concorrerão ao Prémio Redentor nas seguintes categorias: 1) Melhor Longa-Metragem de Ficção, 2) Melhor Longa-Metragem Documentário, 3) Melhor Curta-Metragem, 4) Melhor Direcção, 5) Melhor Actor, 6) Melhor Actriz, 7) Prémio Especial de Júri, 8) Melhor Longa-Metragem de Voto Popular, 9) Melhor Curta-Metragem de Voto Popular.

Segundo a informação que retirei do blogue culturaemercado, para “participarem da Mostra Competitiva da Première Brasil e concorrerem aos prêmios, os filmes longa-metragens deverão atender às seguintes condições: a) não ter se inscrito em edições anteriores do Festival do Rio; b) ter duração superior a 70 minutos; c) não terem sido explorados comercialmente por qualquer mídia em todo território brasileiro; d) apresentarem cópia para seleção em 35mm ou em DVD; e) se selecionados, apresentarem cópia final em 35mm ou digitalizada pelo sistema de encodamento da Rain”.
Ver mais informação em http://www.festivaldorio.com.br/.
TECNOLOGIA DE JORNAIS ELECTRÓNICOS
Liam Berkowitz, do Editors Weblog, escreveu ontem que a tecnologia do papel electrónico será possivelmente lançada em 2009. Trata-se, pois, de uma das mais excitantes inovações, acrescenta a notícia, citando Ryosuke Kuwata, vice-presidente da E Ink Corp. Se as empresas americanas estão a desenvolver modelos a partir da tecnologia japonesa, os jornais europeus começam a despertar para o facto.
O vídeo abaixo terá cerca de dois anos e mostra uma espécie de papel electrónico, com um indivíduo com uma luva a manipular o equipamento (Sony). Será esse o futuro? Parece que sim.
TOLDOS É NA GULBENKIAN
ECONOMIA DOS MEDIA EM TESE DE DOUTORAMENTO

Ontem, na Universidad Complutense (Madrid), Paulo Faustino defendeu a sua tese de doutoramento intitulada Economia, gestão e concentração dos media: tendências e dinâmicas na imprensa num contexto multimedia, tendo sido aprovado com a nota máxima.
O novo doutor apresentou um trabalho orientado para a imprensa e dividido em quatro partes: estudo e estatísticas da imprensa; economia, gestão e marketing na imprensa; concentração nos media; análise empírica e tendências na imprensa. Destaco a segunda parte (gestão, tendências do negócio dos media impressos, marketing, rendimento económico e financeiro, caracterização geral do mercado) e a terceira parte (estudo da compra da Lusomundo Media pela Controlinveste Media).
Para Faustino, a economia dos media considera nomeadamente a análise dos colaboradores, empresa, indústria, consumidores e reguladores. Segundo o autor, muita da literatura tem-se concentrado em cinco áreas: conceitos micro-económicos, modelos de organização industrial, direcção e actualização no mercado, estudos sobre política de comunicação, economia e políticas dos meios. A investigação incide em publicidade, circulação, concorrência, propriedade e conteúdos editoriais. Como grandes conclusões, a tese agora presente aponta mudanças na imprensa caracterizadas na tendência para vender a informação em mais do que um suporte e o esforço crescente para reduzir a dependência da publicidade. Tal quer dizer, segundo Paulo Faustino, que os media de imprensa são vistos como: 1) empresas de venda de informação, e não de papel, 2) entidades de serviços de comunicação e formação, 3) dinamizadoras de suportes e canais de distribuição, 4) produtoras de cultura e de ócio, com a venda de livros, CD, DVD, eventos.

Da arguência da tese destaco os seguintes elementos: 1) caracterização de mercados dominantes e relevo dos anúncios classificados (Francisco Rui Cádima, Universidade Nova de Lisboa, o primeiro à esquerda na imagem), 2) diferenciação do conceito concentração em termos de âmbito geográfico (regional, nacional, europeu) e de produto (fragmentação da quota de mercado de publicidade) (Alfonso Sánchez-Tabernero, Universidade de Navarra, o segundo à esquerda na imagem), 3) relação entre indústria de papel, modelo de gestão e problema do local (Jesus Timóteo, Universidad Complutense, terceiro a contar da esquerda; à direita da imagem, está Paulo Faustino; o segundo a contar da direita é Fernando Peinado, da Universidad Complutense).
Por me parecer interessante, desenvolvo aqui as ideias de Jesus Timóteo, o presidente do júri da tese. Assim, ele realça o facto de as empresas dos media já não serem de informação e cultura mas de comunicação e entretenimento. Por seu lado, tem-se esquecido, no modelo de gestão, de poderosos operadores entrados na indústria dos media, caso das telecomunicações e de conteúdos como a Microsoft e o YouTube, o que torna o mercado um palco exercido por três tipos de players: 1) velha indústria dos media, 2) operadores tecnológicos, e 3) operadores de conteúdos. A terceira característica, já observada por Sanchéz-Tabernero, é o modo como se olham as empresas: locais ou grandes grupos? Isso condiciona a análise da concentração. Por exemplo, as pequenas empresas formam um mosaico muito diversificado e rico. Mas não serão as grandes empresas que ditam as normas? E, ainda, um grande grupo em Portugal (ou em Espanha), se comparado com os grandes grupos europeus, americanos, japoneses ou chineses, continua a ser um grande grupo? Local é a Estremadura, a Espanha ou a Europa?
Na minha leitura do trabalho, enfatizo dez pontos: 1) compreensão do tecido empresarial dos media impressos, já visível no seu livro de 2004 (ver minha mensagem de 25 de Setembro de 2004), 2) relacionamento da imprensa com a publicidade, as mudanças tecnológicas e profissionais, 3) relevo dos jornais gratuitos, produto de sucesso em Portugal, 4) gestão empresarial, a questão central da tese, a meu ver, em que os media têm sucesso se funcionarem como empresas organizadas, 5) as oportunidades e as ameaças nos media como indicadores de análise, 6) internet (e digitalização) e a nova literacia, 7) imprensa nacional e imprensa regional/local, um começo da investigação científica nesta área em Portugal, 8) produção/distribuição de conteúdos por diversos canais e media, 9) aplicação dos conceitos de concentração/consolidação e pluralismo político (discussão que vai começar a ser feita em Portugal), 10) reflexão sobre a relação produto jornalístico versus produtos de marketing alternativo.
LIVRO DE LÍDIA MARÔPO LANÇADO AMANHÃ
Amanhã, pelas 18:00, Lídia Marôpo lança o seu livro A Construção da Agenda Mediática da Infância, uma edição dos Livros Horizonte. A sessão decorrerá na Livraria Almedina ao Saldanha em Lisboa. Com apresentação do Juíz Conselheiro Dr. Armando Leandro, presidente da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco.
"IMPRENSA DE CORAÇÃO" EM DEBATE EM ARANJUEZ
El periodismo rosa a debate, eis o título do curso de Verão dirigido pelo professor Juan Luis López-Galiacho, de 30 de Junho a 4 de Julho, em Aranjuez (Espanha), organizado pela Universidad Rey Juan Carlos.
O curso trabalhará casos e conceitos tipo deste género jornalístico no panorama espanhol e internacional, onde o entretenimento, a fofoca e o sensacionalismo são elementos mais importantes que a informação. Participam profissionais espanhóis da imprensa de coração, como Chelo García Cortés, María Patiño, Jesús Mariñas e María Teresa Campos.
OS CINEMAS TAMBÉM MORREM EM MADRID
O jornal El Pais de hoje dá destaque ao fecho do cinema Palacio de la Música (imagem de cima, tirada hoje ao final do dia), na Gran Vía, mesmo no coração de Madrid. As portas encerraram ontem. Na mesma rua, ficam apenas os cinemas Capitol, Palacio de la Prensa e Callao (este último na imagem de baixo).
Os filmes que passaram ontem seriam (títulos no mercado castelhano) Antes que el diabo sepa que has muerto, de Sidney Lumet (sala grande), 88 minutos, de Jon Avnet (sala 2) e 21: Black Jack, de Robert Luketic (sala 3).
O cinema nasceu há 82 anos, em 1926. O jornal ABC de 14 de Novembro desse ano escreveria que seria, talvez, a melhor sala europeia, um prodígio de luxo, bom gosto, comodidade e elegância. A película de estreia foi La Venus americana, com Esther Ralston e Louise Brooks. O cinema tinha quase dois mil lugares e três andares, para concertos e cinema, além de um salão de festas no piso inferior.
Diego Galán conclui no El Pais que a mítica Gran Vía, a quem alguém chamou a Broadway madrilena, está a ficar sem cinemas, tendo já desaparecido o Azul, Pompeya, Rex, Imperial, Avenida.
ALEXANDRA, FILME DE ALEXANDER SOKUROV
O helicóptero sobrevoa o quartel, arrastando uma nuvem de pó, enquanto Alexandra Nikolaevna (interpretada por Galina Vishnevskaya) é levada ao colo pelo neto Denis (interpretado por Vasily Shevtsov), depois de ter estado dentro de um tanque de guerra (ver extracto do filme aqui, com tradução em francês, e aqui, sem tradução).
Noutro plano, Alexandra fala com o capitão da unidade. Enquanto conversam, o som de helicópteros é bem evidente. “Aqui, é quase a guerra”, diz o militar à velha avó. E esta responde: “Vocês sabem destruir. Mas quando aprenderão a construir”? A avó, que gostaria de arranjar uma esposa para o neto, conclui que este nada mais sabe do que atirar (armas). Quando o comandante quer saber mais do que pretende Alexandra, esta pede para regressar ao “hotel”, o espaço da tenda de lona onde está a sua cama enquanto visitante da unidade. O diálogo já não tinha mais para dar.
Stavropol foi o local de onde veio Alexandra visitar o neto. Di-lo quando no mercado toma contacto com as mulheres que ali vendem. Só se vêem mulheres velhas e dois adolescentes masculinos. Os homens desapareceram. Percebe-se pelo que diz Marlika, a interlocutora de Alexandra, em voz baixa quase de confidência: os irmãos morreram, as irmãs morreram, a irmã mais nova fugiu com o filho para a montanha. Em fundo dessa conversa, ouvem-se vozes masculinas: a dos militares ocupantes.
Nessa visita de alguns dias, Alexandra descobre um mundo novo, de temperaturas elevadas, de desconforto, de conflito latente. A paisagem humana é sempre inóspita: os soldados são transportados num comboio de mercadorias, as armas têm de ser limpas periodicamente para não encravarem, os soldados dormem em tendas velhas ou andam pelo acampamento como se fossem zombies, a limpeza é escassa, no mercado vendem-se poucas coisas, as casas da cidade estão todas esburacadas por bombardeamentos.
Alexandra Nikolaevna penetra num mundo masculino, o da guerra, universo fechado de luta e ideia vaga de pátria face a inimigos que nunca querem compreender. Mas, lentamente, desloca-se para outro universo, o das mulheres, que percebem quais os principais valores da vida: o amor, o trabalho, o sacrifício, a colaboração. O chá que Marlika dá a Alexandra Nikolaevna, embora mau, alimenta as confidências, a percepção do mundo. Por elas, a guerra acabaria – por estúpida que é. Por seu lado, Alexandra e Denis reencontram a cumplicidade antiga, quando ele diz que prefere não casar por não ter muitas poupanças e penteia e faz a trança à avó.
A guerra sabemo-la qual é, mas a palavra Chechénia nunca é pronunciada. Parece um tabu, que os russos não querem pronunciar, como se temessem pelas próprias palavras.
Actualização: a actriz Galina Vishnevskaya é soprano (há no YouTube vários vídeos com interpretações suas) e viúva de Mstislav Rostropovich, maestro falecido o ano passado (obrigado Carlos, pela dica).
GUERRAS
Esta semana vimos um vídeo com uma jornalista da CBS a dizer numa reportagem em directo o que estava a acontecer na guerra do Iraque: menos reconstrução e mais preocupação com a segurança. E acusava os media americanos de não reportarem os mortos em combate deste país.
Hoje, o Observer faz notícia de duas páginas com outra frente de guerra internacional: o Afeganistão. Isto a propósito da primeira vítima mortal feminina das tropas inglesas, na semana passada: Sarah Bryant, de 26 anos. Além da reportagem, o jornal traz uma fotografia dela quando se casou, em 2005.
As mulheres estão impedidas de permanecer na linha da frente, pois qualquer combate pode ser fatal. Estar na linha da frente é enfrentar o inimigo e matar (ou ser morto). Mas, no Afeganistão, o conceito de linha da frente é cada vez mais ténue. E, lá como no Iraque, o perigo ronda as mulheres desde que estas saem do quartel, escreve Mark Townsend.
Mas há que reparar noutro aspecto: com Bryant morreram três homens, aos quais não foi dado muito relevo. O enquadramento e o valor-notícia iriam para a única mulher desse grupo, prova da inexactidão (tendência) ou do sensacionalismo das notícias. Não há qualquer diferença entre a morte de um homem e a morte de uma mulher. Um desses homens igualmente desaparecidos, Sean Robert Reeve, de 28 anos, sabia que estava num emprego perigoso num sítio perigoso. Ele quis oferecer canetas e lápis às crianças afegãs que não tinham nada dessas coisas. Algo muito diferente do seu país, Reino Unido, onde os temas são outros. Com lápis e canetas mais do que suficientes, as escolas oferecem preservativos, testes de gravidez e pílulas do dia seguinte a adolescentes femininas a partir dos onze anos (como diz a manchete do mesmo The Observer de hoje).
Mundos diferentes, mundos igualmente violentos. Do ponto de vista moral, o mundo da comunidade invasora não parece melhor do que o país situado nos confins da civilização.














