O casamento é uma decisão privada que requer um acto público. À porta da igreja ou do registo civil, com ou sem convidados, a fotografia é um elemento que perpetua o acto. Mas a cidade surpreende-nos, ao vermos os noivos posarem. A rua estava cheia de transeuntes, que passeavam, tomavam café, faziam compras de Páscoa, numa magnífica tarde primaveril. O casal, anónimo para o passeante, associava-se ao movimento, à azáfama, à novidade urbana. Uma máquina que não a do fotógrafo oficial captou o gesto – o sorriso dele, a presença dela. Um acto de entre milhares de actos ao longo da rua (Abril de 2011, Rua de Santa Catarina, Porto).
>EDIFÍCIO DA VODAFONE PREMIADO
>O sítio Archdaily publicou ontem a lista dos vencedores dos vencedores de edifícios 2010. Dos 14, constavam três no Grande Porto: edifício Vodafone, na avenida da Boavista, bar da faculdade de Arquitectura e Closet House, em Matosinhos (notícia do Jornal de Notícias).
>CIDADES – 9
>
“Cada viajante constrói, das cidades que ama, uma ideia que raramente coincide com a lógica da geografia urbana. [...] desenha percursos, associações imaginárias, mitos instrumentais que o fazem ver as fachadas, os monumentos, as praças e as gentes de uma determinada zona como os melhores sinais identificadores do espírito do lugar” (António Mega Ferreira, Roma. Exercícios de reconhecimento, 2004, p. 13).
DIA DO BAIRRO ALTO – 15 DE DEZEMBRO
Hoje, celebram-se 497 anos sobre a concessão do aforamento para a construção de habitações na zona hoje conhecida como Bairro Alto. Para comemorar o aniversário, a Câmara Municipal de Lisboa, a Associação de Comerciantes do Bairro Alto, as Juntas de Freguesia da Encarnação e de Santa Catarina associam-se para dinamizar um conjunto de iniciativas para este dia, de cariz cultural e recreativo.
PORTO
Retirei do blogue archdaily as duas imagens seguintes. Eis uma forma muito curiosa de juntar estética, novidade e assento enquanto se espera o autocarro (Largo dos Lóios, Porto) (fotografias de Dinis Sottomayor, Diogo Aguiar, Teresa Otto, Manuel Magalhães e OPOLab).
MOVIMENTO CIDADES PELA RETOMA
“As cidades desempenham um papel nuclear no desenvolvimento do país, por aí concentrarem uma parte substancial da população, órgãos de poder, grupos e dinâmicas económico-sociais. A crise actual pode ser uma oportunidade para produzir um novo olhar sobre o papel das cidades na vida económica e social do país. Contudo, isso obriga a uma mobilização dos diversos agentes sociais, culturais e económicos e novas metodologias de planeamento com uma forte liderança pública. Este espaço pode ser uma oportunidade para discutir as políticas e os instrumentos de intervenção sobre as cidades em Portugal” (Cidades pela Retoma).
“Num momento de particular dificuldade financeira e económica do país, a campanha cívica ‘Cidades pela Retoma’ (Cidades pela Retoma) pretende sensibilizar os poderes públicos (nacionais e locais), os agentes económicos e sociais e os cidadãos para a pertinência e oportunidade de reflectir sobre o papel das cidades na retoma económica. Para tal, a campanha irá mobilizar os cidadãos, em particular os especialistas da temática das cidades (técnicos e cientístas), empresários, personalidades das artes, cultura e dos media e, ainda, individualidades que desempenhem cargos de responsabilidade política a participar num exercício de reflexão colectiva sobre o papel das cidades na actual fase de desenvolvimento do país, que vise identificar e avaliar os seus recursos com potencial para o desenvolvimento económico e social e ajudar a definir uma ‘agenda local para a retoma’. A iniciativa vai ter o seu primeiro evento público nos próximos dias 20 e 21 de Outubro, no Clube Literário do Porto, organizado pela Associação de Cidadãos do Porto” (Cidades pela Retoma).
JARDIM DO CAMPO GRANDE
Até ao final do primeiro semestre de 2010, o edifício Caleidoscópio e o Jardim do Campo Grande vão ser requalificados, lê-se em texto do Diário de Notícias de ontem. Desde 2004 que um litígio entre a Câmara de Lisboa e a entidade concessionária daqueles espaços fez com que o edifício, o ringue de patinagem, os campos de ténis e os sanitários fossem abandonados. Para o Caleidoscópio prevêem-se a livraria técnica, o único espaço aberto actualmente, duas salas de carácter ambiental (da leitura não percebi o que significa), um auditório, uma sala de ensaio para grupos culturais e gabinetes para a associação académica (também não a identifiquei). O custo da requalificação está orçado em três milhões de euros, ficando de fora o café exterior ao Caleidoscópio e a actividade de barcos a remos do lago.
Em volta do Campo Grande, há a cidade universitária, a Faculdade de Ciências e a Universidade Lusófona.
PRAGA
TODOS
O festival Todos – Caminhada de Culturas regressou ao eixo Martim Moniz-Avenida Almirante Reis, em Lisboa, com circo cigano, uma estrela da canção chinesa, à mistura com fado, e aulas de culinária. Estas decorreram hoje e repetem-se amanhã, no Mercado do Forno do Tijolo, festival de gastronomia como forma de manifestação cultural e partilha de saberes. Famílias da Índia, China, Brasil, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Ucrânia cozinharam para comensais curiosos de aprender como se fazem os pitéus, comidos com ânimo e vontade de experimentar em casa.
http://widget-bb.slide.com/widgets/slideticker.swfhttp://www.youtube.com/v/SEysPTpoUDA?fs=1&hl=pt_BR
CIDADES – 5
Escreve Zygmunt Bauman que as áreas habitadas conhecidas como urbanas e chamadas cidades caracterizam-se por forte densidade de população e elevadas taxas de interacção e comunicação.
Dos tempos antigos, como na Mesopotâmia, à idade média, os limites das cidades eram definidos por valas e muralhas, defesas contra inimigos, contra os “outros”. A cidade era o lugar seguro.
Hoje, recapitula Bauman, há uma curiosa alteração no papel histórico da cidade e um desafio claro às intenções originais dos construtores das cidades e às expectativas dos seus habitantes. Aponta mesmo uma inversão milenar da relação entre civilização e barbárie, com o terror e a violência a instalarem-se na cidade. Ou seja, as fontes de perigo vieram para dentro da cidade e ameaçam permanecer. Misturam-se amigos e inimigos, nós e os outros, sobretudo os estranhos ganham espaço. A guerra contra a insegurança, e em particular contra os riscos e perigos para a segurança pessoal, encontram-se dentro da cidade. Por isso, surgem novas trincheiras: acessos intransponíveis e armados, edifícios em condomínios fechados, com vigilância electrónica.
Separar e manter distâncias – eis a estratégia mais habitual na luta urbana pela sobrevivência.
Leitura: Zygmunt Bauman (2007). Tiempos liquidos. Vivir en una época de incertidumbre. Barcelona: Tusquets, pp. 103-105
GASTRONOMIA EM LISBOA
Nos dias 18 e 19 deste mês, das 10:00 às 14:00, no Mercado do Forno do Tijolo, em Lisboa, o projecto Todos – Caminhada de Culturas promove um festival de gastronomia como forma de manifestação cultural e partilha de saberes. Famílias da China, Índia, Ucrânia, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe vão mostrar as suas tradições culinárias.
Miguel Abreu, pordutor, encenador e actor, fundador da Cassefaz, tendo sido responsável pelo teatro Maria Matos, programador do CCB e da Faro Capital Nacional da Cultura, é actualmente director do Todos – Caminhada de Culturas, evento que envolve as comunidades residentes nos bairros da Mouraria, Almirante Reis, Intendente e Anjos. Pergunta ele: “o Martim Moniz é um território ou um não-lugar? Território geográfico, sem dúvida. Mas como é que a cidade quer assumir esse território? Quais os preconceitos que aquele território desperta nos restantes lisboetas”?
[a partir da Agenda Cultural de Lisboa, Setembro de 2010]
CIDADES – 4
Manuel Castells (2002: 496) indica que tem havido uma concentração espacial de actividades como finanças, seguros, consultadorias, marketing, segurança, recolha de informação, investigação e desenvolvimento, em certos centros nodais de alguns países. Ele identifica cidades como Nova Iorque, Tóquio e Londres nas áreas das finanças e consultadoria, Chicago e Singapura em segmentos específicos de comércio, Hong Kong, Osaka, Frankfurt, Zurique, Paris, Los Angeles, São Francisco, Amsterdão e Milão como centros financeiros e serviços empresariais, e Madrid, São Paulo, Moscovo e outras cidades enquanto “mercados emergentes”.
As cidades, e os seus bairros comerciais, são complexos de produção de valor baseada na informação (Castells, 2002: 503), onde as sedes das empresas e os serviços financeiros avançados encontram fornecedores e mão-de-obra especializada e qualificada, não os incorporando nas suas estruturas mas recorrendo a eles sempre que necessário. A isso chama flexibilidade e adaptabilidade. No mesmo texto, insiste em considerar que as novas actividades concentram-se em pólos específicos (Castells, 2002: 498), dando origem ao fenómenos da cidade global, onde se ligam serviços avançados, centros produtores e mercados numa rede global de intensidade diferente e com escalas diferentes. E salienta que, dentro de cada país, a arquitectura da formação de redes reproduz-se em centros locais e regionais.
Os principais centros metropolitanos, conclui, oferecem as melhores oportunidades e auto-satisfação: boas escolas para os filhos dos profissionais liberais, e adesão simbólica ao grande consumo, onde se incluem a arte e o entretenimento.
Leitura: Manuel Castells (2002). A sociedade em rede, vol. 1. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian
CIDADES – 3
O texto de Walter Benjamin, Paris, Capital do Século XIX, é um dos mais citados do autor desaparecido tragicamente no começo da II Guerra Mundial, a par de A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica. A estrutura é simples, como se fossem fichas de leitura tendo um tema e um autor ou homem de acção (filósofo, político). Mas a escrita é densa (política e filosoficamente) e a leitura agradável. Assim, o texto contempla Fourier ou as galerias, Daguerre ou os panoramas, Grandville ou as exposições universais, Luís Filipe ou os interiores, Baudelaire ou as ruas de Paris, Haussmann ou as barricadas, num total de 14 páginas, incluindo bibliografia.
O primeiro ponto, e um dos que mais me interessam aqui, é sobre as galerias, associadas aos grandes armazéns onde se expunham têxteis e artigos. Benjamin cita um Guia Ilustrado de Paris: “Estas galerias, uma recente invenção do luxo industrial, são corredores com tectos envidraçados e entablamentos de mármore que atravessam blocos inteiros de edifícios [...] alinham-se as lojas mais elegantes, de tal forma que as galerias formam uma cidade, um mundo em miniatura”. As galerias, cenário da primeira iluminação a gás, eram construídas com novos materiais: ferro, já usado nos carris e locomotivas dos comboios, e vidro, aplicado à construção (p. 68), e começariam a surgir por volta de 1837.
As exposições universais são outra “ficha de leitura” no texto de Benjamin. Taine escreveria em 1855: “A Europa desloca-se para ver as mercadorias”. Os seus promotores queriam que elas divertissem as classes trabalhadoras e fossem festas de emancipação. Nascia o conceito de consumo, além do da produção inerente ao modo de produção industrial, criando um valor de troca mais poderoso que o valor de uso (p. 72). Escreve Benjamin, numa linha de raciocínio tipicamente marxista, e que podemos retomar em Theodor W. Adorno: “Elas inauguram uma fantasmagoria onde o homem entra para se divertir, uma ideia que é facilitada pela indústria do entretenimento que o coloca ao nível da mercadoria”. À mercadoria, ao seu fetichismo, juntam-se as spécialités, a moda e a publicidade (o reclame), que o século XX iria ampliar.
Lugar de trabalho e lugar onde se vive distinguem-se, escritório e interior do lar opõem-se, eis outro ponto do texto Paris, Capital do Século XIX. Anuncia Benjamin: “Na configuração do seu quadro de vida privada, o indivíduo reprime ambas as precoupações” (p. 73): as reflexões sobre os negócios e sobre a função social do indivíduo. A sala de estar é um camarote no teatro do mundo – como seria útil Benjamin escrever hoje sobre a cultura do quarto, o espaço onde o indivíduo, caso do adolescente, vive rodeado de máquinas electrónicas de comunicar.
Ao lar e ao espaço público, Benjamin junta Haussmann e o seu ideal de “traçado de longas e alinhadas fileiras de ruas” (p. 75). A actividade de Haussmann integra-se, diz o nosso autor, no imperialismo napoleónico que favorece o capital financeiro. As suas expropriações dão origem a discursos parlamentares de oposição (1864), mas os quartiers perdem a sua fisionomia. A verdadeira finalidade de Haussmann, nota o crítico, foi “precaver a cidade contra a guerra civil”. O incêndio de Paris seria o remate da obra de destruição levado a cabo por Haussmann (p. 77). Noto que a Moscovo de Estaline também alterou a fisionomia de ruas estreitas e casas baixas, onde comunidades viviam juntas há séculos, e transformou essas zonas em avenidas largas com prédios elegantes embora pesados, para premiar a intelligentsia e a nomenklatura. E o mesmo estará a acontecer em Pequim e Xangai.
Baudelaire e a melancolia do indivíduo que caminha isolado na cidade (spleen e flâneur) são como que um fecho do texto de Benjamin, como aqui se lê: “A multidão é o disfarce através do qual a cidade familiar atrai o flâneur como uma fantasmagoria [que] ora a faz parecer uma paisagem ora um quarto, [e] inspirou a ornamentação dos grandes armazéns que tornam a própria flânerie um negócio lucrativo” (p. 74). O que é único em Baudelaire, continua Benjamin, é a compreensão e articulação das imagens da mulher e da morte, da modernidade que estilhaça o ideal.
Outro ponto do texto de Benjamin é o que identifica os panoramas, paisagens que se emancipam da pintura, “através de artifícios técnicos, em teatros de uma perfeita imitação da natureza” (p. 69). O pintor David aconselhava os seus alunos a desenharem os panoramas com rigor e fidelidade ao modelo real. Benjamin fala ainda de uma literatura de panorama, de esboços que representavam figuras desenhadas em primeiro plano nos panoramas. Ora, Daguerre era aluno de Prévost, um pintor de panoramas. O seu aparelho de fotografia seria anunciado em 1839. Depois, em 1855, a Exposição Universal consagra a primeira mostra particular de fotografia (p. 70), enquanto Wiertz publica o primeiro artigo sobre fotografia. Benjamin sugere que, à medida que se desenvolvem os meios de transporte, a pintura perde importância, substituída pelo instantâneo da fotografia. Igualmente, interesses económicos abrem-se ao novo meio.
Conclui Benjamin: a arquitectura abre-se às construções da engenharia, a fotografia persegue os valores da reprodução da natureza, a fantasia completa-se nas artes gráficas e na publicidade na Paris oitocentista, quando datam as galerias, os interiores do lar, as salas de exposição e os panoramas. Escreve: “Cada época transporta em si uma finalidade e realiza-a com astúcia – como Hegel percebeu” (p. 77). O principal objectivo do texto era dar conta das ruínas da burguesia, no momento em que a aristocracia perdera igualmente o poder. Mas muito decorreu até hoje e a visão catastrofista e radical de Benjamin precisaria de ser descodificada e reenquadrada.
Leitura: Walter Benjamin (2001). “Paris. Capital do Século XIX”. In Carlos Fortuna (org.) Cidade, Cultura e Globalização. Oeiras: Celta, pp. 67-80
CIDADES – 2
António Pinto Ribeiro nasceu em Lisboa e viveu em várias cidades africanas e europeias, diz assim a sua curta biografia exposta na badana do livro É Março e é Natal em Ouadagoudou, já referenciado aqui. Por isso, os textos curtos sobre cidades da África e da América Latina e, em menos quantidade, da Europa, da Ásia e da América do Norte. O subtítulo do livro é livro de viagens.
Confesso que ignorava o nome de algumas dessas cidades, mas fica o inventário de todas sobre as quais escreveu (espero não ter esquecido nenhuma da leitura que fiz): Alexandria, Bamako (Mali), Bogotá, Brasília, Buenos Aires, Cabo Verde, Cidade do México, Dakar, Havana, Inhotim (Brasil), Lima, Lisboa, Maputo, Nova Iorque, Ouagadougou (Burkina Faso), Paris, Pequim, Porto Alegre (Brasil), Rio de Janeiro, S. Paulo, S. Tomé, Sabie (Hermanus e outros sítios na África do Sul), Santiago do Chile, Stonetown (Zanzibar) e Veneza. Do seu texto sobre Alexandria, deixei aqui algumas pistas.
O livro começa com um texto sobre Lisboa e acaba com outro texto sobre esta cidade. O primeiro assinala a sua leitura de um outro livro, de Alexandra Lucas Coelho, Oriente Próximo; o último fala da festa de passagem de ano (2004-2005) no Lux, que lhe deixou gratas recordações. Um livro e uma festa – eis o seu modo de olhar a cidade, não na perspectiva do turista, maravilhado pela arquitectura ou pela cozinha, mas por objectos de cultura. Aliás, o olhar que nos mostra das cidades é invariavelmente dado pela cultura. As cidades são ricas culturalmente, como Alexandria com a sua nova biblioteca, em “que a cultura é um eficaz instrumento para a experiência positiva do mundo e da interculturalidade” (p. 21), Bogotá, que ostenta ”as formas estéticas que marcaram o barroco opulento saído da Contra Reforma” (p. 68), e Veneza, onde a empresa de barcos que liga as ilhas decidiu editar 4,5 milhões de livros em papel reciclado e oferecê-los, com a ideia de “desafiar o cidadão que apanha o vaporeto para curtas viagens a ler, no espaço de tempo que a viagem lhe permite, um livro de 12 páginas” (p. 54).
Ou ainda na sua flora, como em Maputo, em que as “acácias rubras floridas [estão] de um lado da avenida e, do outro, jacarandás já sem flores; porque as acácias só florescem quando os jacarandás perdem as flores. É que a beleza de ambas as árvores floridas seria tão excessiva que dificilmente a cidade a suportaria” (p. 48). E quando apresentam uma decadência quase humana, como Stonetown, em que se interroga “Que aconteceu no dia em que tudo se começou a desmoronar? Que dia foi esse? [...] Mas porque não se impediu o processo?” (p. 39) ou em crescimento, como Pequim, onde o “tamanho da cidade pode ser medido pelo tempo que um autocarro expresso demora a atravessá-la de uma ponta a outra: 10 horas” (pp. 10-11). E ainda aspectos estéticos, como quando faz um levantamento das cosas buenas e cosas malas em Havana: dos dois lados coloca as mini-saias.
Leitura: António Pinto Ribeiro (2010). É Março e é Natal em Ouadagoudou. Livro de viagens. Lisboa: Livros Cotovia
CIDADES – 1
O Grão Kublai Kan ouvia Marco Polo, primeiro por gestos, gritos ou presença de objectos, porque o viajante e mercador veneziano não conhecia a língua tártara. Mais tarde, Marco Polo já se exprimia por palavras nesta e noutras línguas. Ora, as palavras são símbolos que representam realidades. Daí Kan se dirigir a Marco: ”No dia em que conhecer todos os símbolos – perguntou a Marco -, conseguirei possuir o meu império, finalmente?” Ao que respondeu “o veneziano: – Sire, não acredites nisso: nesse dia serás tu mesmo símbolo entre os símbolos” (p. 26).
Marco Polo descrevia as cidades que conhecia ao imperador dessas terras. Elas davam pelos nomes de Adelma, Aglaura, Anastásia, Andria, Árgia, Armilla, Bauci, Berenice, Bersabeia, Cecília, Clarice, Cloé, Despina, Diomira, Doroteia, Ersília, Esmeraldina, Eudóxia, Eufémia, Eusápia, Eutrópia, Fedora, Fílias, Hipácia, Irene, Isaura, Isidora, Laudomia, Leandra, Leónia, Marozia, Maurília, Melânia, Moriana, Octávia, Olinda, Olívia, Pentesileia, Períncia, Pirra, Pocópia, Raissa, Sofrónia, Tamara, Tecla, Teodora, Trude, Valdrada, Zaira, Zemrude, Zenóia, Zirma, Zobaida, Zoé e Zora, num total de 55. Elas, as cidades, ligavam-se a céu, contínuas, desejo, memória, mortos, nome, ocultas, olhos, sinais, subtis e trocas, num total de 11 elementos.
Escreve Italo Calvino, através da personagem de Marco Polo: “Não é disto que é feita a cidade, mas sim das relações entre as medidas do seu espaço e os acontecimentos do passado” (p. 14), “O catálogo das formas é infinito: enquanto houver uma forma que não tenha encontrado a sua cidade, continuarão a nascer novas cidades” (p. 142), “A cidade aparece-nos como um todo em que nenhum desejo se perde e de que nós fazemos parte, e como ela goza tudo de que nós não gozamos, só nos resta habitar este desejo e satisfazer-nos com ele” (p. 16), “São as formas que a cidade poderia haver tomado se não se tivesse tornado, por uma razão ou por outra, como hoje a vemos” (p. 35).
Ou ainda: ”O homem que viaja e não conhece ainda a cidade que o espera ao longo do caminho, pergunta-se como será o palácio real, o quartel, o moinho, o teatro, o bazar” (p. 36), “Os olhos não vêem coisas mas sim figuras de coisas que significam outras coisas: a tenaz indica a casa do arranca-dentes, a garrafa a taverna, a alabarda o corpo do guarda, a balança romana a ervanária” (p. 17). E também: “Para onde levam todos os dias a sua carga os varredores, ninguém quer saber: para fora da cidade, claro; mas cada ano que passa a cidade vai-se expandindo, e os depósitos do lixo têm de ir parar para mais longe” (p.116).
Concluia Marco Polo nas conversas com o Grão Kublai Kan: “Para distinguir as qualidades das outras, tenho de partir de uma primeira cidade que está implícita. Para mim é Veneza. [...] As imagens da memória, depois de fixadas com as palavras, apagam-se” (p. 90).
Fiquei a pensar em algumas dessas cidades invisíveis. Entusiasmado com Isidora, onde os prédios têm escadas de caracol incrustradas de búzios marinhos, amedrontado com Valdrada, onde os assassinos actuam duplamente (na realidade e na sua cópia ou espelho), conhecedor da história que se repete com Clarice, de esplendor à miséria e desta a novo esplendor, curioso com Bauci, onde as casas se elevam do solo através de finíssimas andas.
Leitura: Italo Calvino (2008, edição consultada). As Cidades Invisíveis. Lisboa: Teorema
A LUFA-LUFA VISTA POR JOSÉ MACHADO PAIS
O livro Lufa-lufa quotidiana. Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, de José Machado Pais (2010, Instituto de Ciências Sociais, 227 páginas, 14,4 euros) é um olhar sociológico sobre a vida quotidiana na cidade, antes caracterizada pelo paradigma da indolência e da lentidão e hoje palco do encontrão, da falta de tempo, da lufa-lufa, regime dromocrático onde tudo é feito a correr. Escreve o autor: “É esta percepção dinâmica que convém exercitar ao estudarem-se os tempos do quotidiano: tempos que se deslocam e desmembram ao percorrerem os espaços, numa dispersão e difusão de detalhes, numa fragmentação e justaposição de modos” (p. 16).
São páginas de sociólogo mas igualmente de escritor, dado o modo como capta o leitor com a sua narrativa, frequentemente divertida e mordaz. Para José Machado Pais, a cidade é palco do “dar nas vistas e não dar ouvidos”, pelo que ele analisou a vida quotidiana através de objectos menos comuns de estudo, verdadeiras metáforas da vida urbana. Aqui entram o recenseamento de autocolantes de automóveis (“meu outro carro é mais potente”, “o que levanta a cabeça do pobre é avião”, “não me dê conselho; sei errar sozinho”, “tá com pressa? Vai de bicicleta”, “mulher de mini-saia é o mesmo que cerca de arame farpado; cerca a propriedade, mas não tapa a visão”), as mensagens que acompanham os pacotes de açúcar (“um dia ponho a mochila às costas e vou conhecer o mundo”, “um dia pergunto o teu nome”, “um dia levo para casa um cão abandonado”), o siglagês (mundo das siglas), o uso ou não de gravata (o autor informa possuir duas gravatas, a das bolinhas e a azul das riscas) – um ritual de arrumação, como lhe chama -, as fantasias sexuais das leitoras de revistas cor-de-rosa (pp. 107-109). Mas também as culturas juvenis, urbanas e quase marginais, como skaters, breakdancers, ravers e grafitters, artes de musicar (repentes e improvisações), o projecto Batoto Yetu e o modo como se fazem os estudos culturais, suas fontes documentais e mudanças de atitude [pena não ter incluido um capítulo sobre as mensagens nas t-shirts (camisetas, no Brasil)]. No conjunto do livro, concluo que o corpo do texto é de sociólogo mas a essência é de escritor.
Os capítulos tiveram uma vida anterior em forma de comunicações que o autor retrabalhou, e onde desenvolveu conceitos como metodologia das isotopias, globalização cronotópica, presenteísmo, modernidade reflexiva, espaço sedentário como estriado e espaço nómada como liso e aberto, escola formal e temporalidade monocromática e espaços fora da escola e com temporalidades policromáticas, cultura hegemónica que é mais de exclusão do que de inclusão (nomeadamente em grupos minoritários étnicos). Trabalhou afincadamente autores como Georg Simmel, Paul Ricoeur, Nestor García Canclini, Jesus Martín-Barbero, Anthony Giddens, Ulrich Beck, Gilles Deleuze e Felix Guattari, Manuel Castells, Arjun Appadurai e Jean Baudrillard.
Deixo algumas reflexões do autor. A primeira é das trajectórias de vida, em que o autor destaca a de um jovem (pp. 160-161), que vivera na Pedreira dos Húngaros, zona de Lisboa fustigada pelo tráfego de droga: “aprendi [lá] muitas coisas que sei hoje e se calhar foi de lá ter morado é que penso como penso hoje que esta vida é fuck, quantos mais problemas temos mais aparecem, e queremos resolver cenas mas mais se complicam”. A segunda é sobre a diversidade cultural (e económica), quando cita o romance de cordel, o chamado património cultural imaterial (pp. 183-184): “O rico chega numa festa/De uniforme ou gravata/Com namorada bonita/Loura, morena ou mulata/O pobre é com uma feia/Que parece uma sucata”. Há uma identidade que repousa sobre a diferença, uma cultura que não é erudita mas popular mas igualmente de reconhecer. A última é sobre os estudos da juventude (p. 138), tradicionalmente dominados por paradigmas que reflectiam a forma como ideologicamente os jovens eram representados: dependentes, não autónomos. Hoje, devido à exposição dos media e às tecnologias da informação, os jovens passaram a dispor de um poder não usufruido antes. Acrescenta José Machado Pais que se passou de uma época em que para se ser produtor eram necessárias aprendizagens específicas enquanto para se ser consumidor basta ter-se preferências.
José Machado Pais (1953-) é sociólogo no Instituto de Ciências Sociais e e escreveu nomeadamente A Prostituição e a Lisboa Boémia do séc. XIX aos Inícios do séc. XX (1985), Artes de Amar da Burguesia. Os Rituais de Galantaria nos Meios Burgueses do Séc. XIX em Portugal (1986), Culturas Juvenis (1993), Ganchos, Tachos e Biscates. Jovens, Trabalho e Futuro (2001), Sociologia da Vida Quotidiana.Teorias, Métodos e Estudos de Caso (2002) e Nos Rastos da Solidão. Deambulações Sociológicas (2006).
LIVRO DE ANTÓNIO PINTO RIBEIRO SOBRE CIDADES E VIAGENS
Alexandra Lucas Coelho (jornalista do Público) apresentou-o, dizendo que É Março e é Natal em Ouagadougou apenas na página 33 e em mais parte nenhuma do livro, um retrato diarístico de cidades e viagens de António Pinto Ribeiro.
O livro descreve cidades da China, da África, da Europa e, claro, o Brasil, país luminoso para o autor. Lê-se: Brasil imenso, Brasília, Rio de sol, na terra dos gaúchos, Inhotim. Para Pinto Ribeiro, o Brasil é o futuro e os brasileiros nascem já criativos (aprenderam connosco durante alguns anos, disse, divertindo-nos). Sobre Portugal, afinal, está descrente. E também da Europa. O mundo hoje faz-se na China, na África, na América latina.
Texto mais sombrio, nas palavras da apresentadora – cidade do México. Cidade ingovernável, disse o autor. Cidade que mais o encantou – Bogotá -, como que desfazendo preconceitos.
Fico-me por aqui, copiando um trecho da página 18, sobre Alexandria: “Há ainda Marguerite Yourcenar que, nos anos 30, aqui esteve hospedada neste hotel Cecil (hoje Sofitel) e aqui escreveu parte das Memórias de Adriano. E havia o cinema, o grande cinema egípcio que nasceu nos estúdios de Alexandria; e Omar Sharif, o actor egípcio fetiche de Hollywood; e o escritor Naguib Mafouz, Nobel da Literatura”.
A apresentação decorreu hoje ao fim da tarde, na magnífica livraria Pó dos Livros, aqui em Lisboa. António Pinto Ribeiro é ensaísta, professor universitário e programador cultural.
LOJAS E PATRIMÓNIO DA BAIXA DE LISBOA
A recuperação e requalificação da baixa pombalina em Lisboa custa 700 milhões de euros, e engloba uma grande área comercial e turística, lia-se ontem no jornal Público. Há cerca de 1600 espaços comerciais abrangidos pelo plano de pormenor, com a câmara de Lisboa a incluir a protecção da arquitectura exterior e, até, interior. Isto é, há elementos arquitectónicos decorativos ou estruturais a preservar.
Ideias: criar mapas de actividades nos eixos prioritários, como clusters temáticos de actividades (ourivesaria, retrosaria). E ter bons horários de abertura, incluindo todo o fim-de-semana, pessoal qualificado, ruas e paredes limpas, segurança.
BRASÍLIA
Gostei de ler o artigo de Jorge Marmelo sobre Brasília na passada quarta-feira, dia 21 de Abril, no jornal Público (link aqui).
- “Temos uma qualidade de vida muito melhor do que no Rio de Janeiro ou São Paulo, apesar de os problemas estarem aumentando com o crescimento da cidade e o desenvolvimento das regiões próximas. Mas a violência não é tanta [como noutras cidades brasileiras] e temos um céu lindo. E o traço do arquitecto”, diz a bióloga, recordando os versos de Linha do Equador, a canção de Caetano Veloso: “Céu de Brasília, traço do arquitecto/gosto tanto dela assim.”
Victor Alegria, um português de 71 anos que chegou a Brasília há quase 47, fugido do Estado Novo, e que reclama a capital brasileira como uma segunda pátria, tem uma visão equidistante: reconhece os problemas da cidade, da violência e miséria da periferia à inadequação da cidade aos pedestres. “Quem não tem carro, sofre. Brasília é corpo, cabeça e rodas”, diz. Mas, acrescenta, “tem possivelmente o melhor nível de vida do Brasil”, “uma das melhores assistências médicas, boas moradias, muito lazer e bons restaurantes” [parcela de texto de Jorge Marmelo].
[imagem e vídeo originalmente colocados no blogue em 25 de Novembro de 2008]
TRIBOS URBANAS
O texto que provocou a leitura alargada ao grupo foi o de Carles Feixa e Laura Porzio, a partir de fotografias de Mireia Bordonada, intitulado “Um percurso visual pelas tribos urbanas em Barcelona”, e incluído no livro organizado por José Machado Pais, Clara Carvalho e Neusa Mendes de Gusmão O Visual e o Quotidiano (2008).
Apresenta-se dividido em duas partes, uma teórica e outra empírica, com base nas fotografias de Mireia Bordonada. O texto organiza um percurso através das tribos urbanas conduzido pela máquina fotográfica, procurando os discursos e os significados culturais produzidos em lugares distintos (p. 109).
Assim, a análise debruça-se sobre as culturas e estilos juvenis em Barcelona, a partir da segunda metade da década de 1970, e a produção teórica em volta desse tema. Primeiro, foi a promoção de estudos de opinião sobre consumo cultural e audiovisual e subculturas (culturas emergentes, delinquência juvenil, haxixe), multiplicidade de estilos (el pijo, com identidade da classe alta, marcha nocturna e makinero, como resultado dos novos locais de diversão e da música electrónica). Nos finais da década de 1980 e começo da seguinte, são visíveis os estudos como balanço teórico-conceptual, bem como os trabalhos sobre ultras do futebol, skinheads e okupas e etnografias com novas metodologias e enquanto resultado da expansão da investigação universitária, nomeadamente em teses de doutoramento, além de relatórios aplicados e ensaios gerais. Apesar de espaço escasso, o texto dedicou atenção às culturas juvenis do punk e do hip-hop/rap e do graffiti.
Para a presente década, os autores enunciam três grandes tendências das culturas juvenis em Espanha: 1) activismo (alternativos, antiglobalização, neo-hippismo na moda), 2) cultura da dança (techno, fashion, rave), 3) difusão da internet e geração de “culturas de quarto” e comunidades virtuais (cyberpunks, hackers).
As culturas juvenis mostram hibridação e identidades variáveis e efémeras. Nos meus próprios contactos, verifiquei as conclusões do texto. Após a leitura, uma entrevistada dizia que, quando se procura o mundo do trabalho, há a tendência para retirar piercings e disfarçar tatuagens. O jovem adulto considerava o graffiti como um período curto na adolescência, reconhecendo o risco e a imaturidade dessa intervenção cívica. Outros leitores falaram de subculturas que o texto não indica: os emos, as lolitas. A sua análise fica para outra ocasião.
Leitura de base: Carles Feixa, Laura Porzio e Mireia Bordonada (2008). “Um percurso visual pelas tribos urbanas em Barcelona”. Em José Machado Pais, Clara Carvalho e Neusa Mendes de Gusmão (org.) O Visual e o Quotidiano. Lisboa: ICS, pp. 87-113
CIDADES INDEPENDENTES/INDEPENDENT CITIES
Neste ano de 2010, em que dezassete países africanos comemoram 50 anos de independência e cinco países da América Latina decidem festejar o Bicentenário da sua formação como nações, a realização de um workshop de investigação e produção teórica, no âmbito de um Programa Cultural cujo foco principal incide sobre estas regiões geográficas e culturais, reveste-se, pensamos, de toda a pertinência. [...] Aparentemente, cidades como Casabalanca ou o Cairo pouco terão em comum com Maputo, S. Paulo, Lima ou Bogotá. E, no entanto, como o confirmaram alguns dos investigadores presentes neste workshop, há problemas e soluções que atravessam o “ar do tempo” e que são comuns a muitas delas: um tráfego rodoviário intenso e tendencialmente caótico, a situação de permanente guerra civil, que tipifica muitas cidades sul-americanas e africanas e que torna reféns os seus habitantes, as novas configurações urbanas modeladas pelo aumento cada vez mais significativo das periferias — que as transformam em mega—cidades -, pela extensão tentacular dos bairros de lata/favelas onde se instalam sucessivas vagas de populações rurais na miragem de melhores condições de vida, pelos vazios que a desindustrialização vai provocando, pela criação de um novo tipo de arquitectura, temporária e frágil, produzido pelos que se deslocam no interior das cidades, etc. [foto de cima: Javier Silva-Meinel; foto de baixo: Avelina Crespo]
In this year of 2010, when seventeen African countries will be commemorating 50 years of independence and five Latin American countries have decided to celebrate the bicentenary of their formation as nations, the holding of a workshop dedicated to research and theoretical production, under the scope of a Cultural Programme whose main focus of attention is on these geographical and cultural regions, is, we believe,a highly pertinent occasion. [...] Apparently, cities such as Casabalanca or Cairo have little in commonwith Maputo, São Paulo, Lima or Bogotá. And yet, as some of the researchers attending this workshop have confirmed, there are problems and solutions that pass through the “mood of the moment” and are common to many of them: an intense and generally chaotic road traffic, the situation of permanent civil war, which typifies many South American and African cities and turns their inhabitants into hostages, the new urban configurations shaped by the increasingly significant growth of the peripheries (which has transformed them into mega-cities), by the tentacular spread of the shanty towns/favelas in which successive wavesof rural populations have settled in the vain hope of obtaining better living conditions, by the empty spaces resulting from deindustrialisation, by the creation of a new type of temporary and fragile architecture, produced by those moving around in the heart of the cities, etc.
Texto de/text by António Pinto Ribeiro [Próximo Futuro/Next Future, nº 3]
CARTAS DO JAPÃO III – TRADIÇÕES
[textos e imagens de Rita Botelho]
As duas primeiras fotografias foram tiradas no desfile que ocorreu no último dia (17 de Julho de 2009) de um dos maiores festivais em Kyoto e do Japão: Gion Matsuri. Durante três noites seguidas, a baixa da cidade fica cortada ao trânsito e as ruas enchem-se de pessoas e de tendas onde se vendem comidas tradicionais de rua como yakitori, taiyaki, takoyaki e okonomiyaki. Quase todas as raparigas vestem a sua yukata que é uma espécie de Kimono mais leve para o Verão. É uma festa dedicada aos deuses com o objectivo de proteger o país das pragas, fogos, inundações e terramotos. No festival, são retratados episódios passados e, por isso, é sem dúvida, uma oportunidade única de ver os trajes tradicionais e os rituais do povo japonês.
Em todos os Santuários shintoístas, podemos encontrar na entrada uma base de madeira ou pedra com água fresca para os visitantes lavaram as mãos, a cara e até beberem água como ritual de purificação, como se observa na imagem seguinte. Cada pessoa pega numa concha de bambu que é muito útil para não salpicar o vizinho do lado. É também curioso observar a utilidade prática destes reservatórios de água que estão espalhados por toda a cidade (devido ao elevado número de santuários) durante o Verão extremamente quente e húmido de Kyoto. É comum ver durante esta época mais turistas a refrescarem-se do que habitantes locais, a purificarem-se.
A fotografia seguinte foi tirada à saída de um espectáculo único no centro de Kyoto em que as gueixas e maikos (aprendizes) de vários bairros tradicionais em Kyoto mostram os seus melhores trajes, dançam, cantam e tocam instrumentos musicais tradicionais, tal como se fazia há séculos atrás. Este é um espectáculo único pois só ocorre uma vez por ano e a única oportunidade de ver ao vivo, juntas, as gueixas mais populares de Kyoto. A autora, infelizmente, não teve acesso ao espectáculo mas passou por acaso à porta da sala de espectáculos quando as artistas estavam a sair e a dirigirem-se para os táxis. Esta imagem em particular, captou-lhe especial atenção pela expressão facial da gueixa e do seu acompanhante.
CARTAS DO JAPÃO II – TEMPLOS E SANTUÁRIOS
A primeira carta escrita por Rita Botelho, que viveu nove meses em Kyoto, Japão, foi aqui publicada em 23 de Fevereiro último. Hoje, as fotografias e os textos da segunda carta subordinam-se ao tema templos e santuários. Aliás, como ela escreve, “Kyoto é famosa pelos seus templos e santuários. A cidade está rodeada de montanhas e a toda a volta estão localizados dezenas (talvez centenas) de espaços religiosos. Entre os muitos que tive oportunidade de visitar, estes que aqui mostro talvez tenha sido os melhores exemplos, não só pelas estruturas em si mas por toda a envolvência”.
Kinkaku-ji (templo budista Zen do pavilhão dourado) é uma das principais imagens de marca de Kyoto e, sem dúvida, uma das suas grandes atracções turísticas. A sua popularidade deve-se ao facto de estar totalmente coberto de folha de ouro e destacar-se pela sua riqueza. É de encher a vista mas a multidão de turistas que o visitam apaga parte da magia de visitar um local tão singular.
Fushimi-Inari (santuário shintoista) é talvez um dos locais mais fascinantes de Kyoto.
Trata-se de um complexo de espaços religiosos dedicados aos negócios. Empresas e empresários pagam para ter uma porta (Dori) como uma forma de pedir boa fortuna para os negócios. As Doris são pintadas de vermelho e sucedem-se ao longo de vários caminhos que atravessam a montanha. É um espaço fascinante pelas efeitos de luz criados por essas estruturas de madeira, pela contraste do vermelho com o verde da natureza envolvente e por ser um espaço sempre aberto com entrada gratuita e por isso poder ser usufruído com toda liberdade.
Kyomizu-dera (templo budista). Localizado perto de Gion, a zona mais tradicional de Kyoto, destaca-se pelo terraço de madeira de onde se pode ter uma vista deslumbrante da cidade.
Como se vê na foto, é um espaço digno de muitas fotografias turísticas. Aqui podemos ver o famoso gesto (em V de vitória) que todos (quase sem excepção) japoneses fazem quando tiram fotografias.
Takao. Este é um local mágico rodeado de templos e natureza deslumbrante, localizado nas montanhas a norte de Kyoto. A fotografia foi tirada durante o Outono, que é quando as folhas das árvores mostram as suas melhores cores.
Textos e fotografias: Rita Botelho























































