Arquivo para ‘Cultura’

8 Março 2011

>CULTURA DOWNLOAD

>

A jornalista Lucinda Canelas partiu à procura de jovens com 21 anos, a idade do jornal Público. Uma das entrevistadas lembrava-se do gravador de vídeo VHS mas nunca tinha ouvido falar em discos de vinil. Em 1990, o CD já existia mas ainda predominava o vinil. Hoje, há muitas tecnologias: portátil, telemóvel, mp3. Por outro lado, a cultura jovem do começo da década de 1990 associava-se a um espaço territorial específico, ao passo que hoje o território é virtualizado e à distância de um clique.

A jornalista procurou traçar o perfil do jovem português de 21 anos com base nos seus consumos culturais, aludindo a que nem sempre os estudos distinguem consumos técnicos e de lazer. Primeiro, nota a existência de uma predominância esmagadora de jovens conectados à internet. Depois, a presença constante da música. Em terceiro, a ideia que os amigos e a família continuam a ser parceiros estratégicos. Em quarto lugar, e apesar da internet e das redes sociais, a convivência continua a ser importante, caso de bares e cafés, que criam uma geografia urbana. O meio social é um factor a levar em conta quando se trata de consumos culturais, continua a ler-se no texto de Lucinda Canelas. Tecnologia, escolaridade e urbanização são três eixos primordiais dos consumos culturais dos jovens.

O texto toca outras questões. O motivo central dele é o download, como aparece no título da peça jornalística: A cultura deles está no ADN e no download. Geração download surge na chamada de atenção da capa do jornal. Já não é geração rasca ou parva como se tem dito nestas últimas semanas, mas a geração que descarrega ficheiros, com grande parte dos consumos culturais ilegais, escreve a jornalista. Aqui, devia haver uma distinção entre internet e descarregamentos, por um lado, e consumos culturais (ler livros, ir a espectáculos como cinema, teatro e dança), por outro lado. Aliás, o sociólogo entrevistado destaca que houve crescimento de públicos em todas as áreas culturais.

5 Março 2011

>HIPSTER

>Conforme o texto inserido na Wikipedia, hipster é um termo que surgiu na década de 1940 e foi revisitado nas décadas de 1990 e de 2000 para descrever adolescentes mais velhos e jovens adultos, urbanos e da classe média, com interesses culturais de correntes minoritárias, como rock indie, cinema independente, revistas como Vice [com edição portuguesa em 2009] e Clash, e sítios como Pitchfork. O termo empregue na década de 1940 identificava o aficcionado do jazz, do bebop em particular, popularizado no início dessa década, que adoptava o estilo de vida do músico de jazz, com vestuário, uso da cannabis e outras drogas, atitude descontraída, humor sarcástico, pobreza auto-imposta, e códigos sexuais descomprometidos. O hipsterismo agrega, se quisermos, elementos de movimentos marginais do pós-guerra como beat, hippie, punk e grunge, continuo a ler na página da Wikipedia.

A revista Pública dedicou atenção a este tema na edição de 30 de Janeiro último, com assinatura de David Pinheiro Silva e Joana Amaral Cardoso. Para os autores, o hipster é um estilo, uma escolha de visual com base cultural, em que capitalismo, internet, música e moda ajudam a definir o estilo da cultura jovem actual. O texto ajuda a compor o que a Wikipedia não engloba, ao procurar identificar os estilos da moda juvenil ao longo das décadas: “Nos anos 1970 havia o hippie, nos anos 1980 o punk e nos anos 1990 o slacker, que ouvia rock grunge e vestia camisas de flanela. A roupa desportiva de b-boys e b-girls da cultura hip-hop seguiram-se-lhe. [...] Hoje, quando olhamos para os adolescentes e jovens adultos, haverá sempre pelo menos um hipster entre eles”.

Lê-se ainda que o fenómeno hipster se resume a gosto, conceito que encontramos definido em Pierre Bourdieu. O prefixo hip é sinónimo de algo de novo e fresco. O hipster tem um distanciamento face à política e é adepto do grande consumo, ideia contrária à da definição da Wikipedia, o que me deixa confundido. Um investigador assinalado no texto da Pública indica mesmo que os hipsters não fazem nada de mal, não fazem mesmo nada. Também são considerados como flaneurs, como Baudelaire escreveu. Talvez, no fundo, seja mais uma série de referências adoptadas a nível visual do que uma contracultura ou movimento, onde não há uma substituição de referências mas uma sua acumulação, que remete para a singularidade. Vítor Ferreira, sociólogo citado no texto, diz: “A história do hippie e do punk é escrita nos termos do sistema social e político em que se inseriam. Aqui [nas cenas juvenis actuais] há uma deriva heterotópica, porque se fragmenta muito, em que a acumulação de referências é que vai dar substância biográfica e individual aquela trajectória e remete para uma série de referências que a vão singularizar”.

29 Janeiro 2011

>CULTURA

>O ministério da Cultura já não vai avançar com a fusão do Teatro S. Carlos e Companhia Nacional de Bailado com o Teatro D. Maria II e Teatro S. João (notícia do Expresso de hoje). A alteração de propósitos surge depois de críticas fortes e da demissão de Jorge Salavisa à frente da administração da OPART (Organismo de Produção Artística, que tutela o teatro S. Carlos e a companhia de bailado), cargo que assumira em Abril de 2010. A ministra Gabriela Canavilhas diz querer uma programação que seja do interesse dos frequentadores dos teatros associada a uma optimização de recursos.

12 Janeiro 2011

>DIREITO DA CULTURA

>”O Direito da Cultura é um novo ramo do conhecimento que trata de aproximar duas matérias científicas: o Direito e a Cultura“. Ler mais.

11 Janeiro 2011

>COMUNICAÇÃO & CULTURA – DOIS NÚMEROS DA REVISTA

>Pós-género e A festa são os dois mais recentes números de Comunicação & Cultura, revista do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da UCP.

“Como poderá uma figura tão calculista e artificial, tão clínica e estranhamente artificial, tão despida de erotismo genuíno, ter-se tornado o ícone da sua geração”? (Camille Paglia, citada por Isabel Gil e Carla Ganito, coordenadoras do número Pós-género). A figura é, claro, Stefani Joanne Angelina Germanotta, aliás, Lady Gaga. O título do editorial das coordenadoras esclarece melhor: “Paródia, pastiche, perversão e política: a teoria no reino do pós-género”. Continuam as duas autoras: “Oriunda da classe média nova-iorquina e educada em escolas de elite, a artista usa o modelo social sob a forma de apropriação inversa, isto é, aproveita o modelo da cultura dominante de fundo capitalista contra si própria”. Lady Gaga usa as estruturas da culturalite: a construção da celebridade, os mecanismos de marketização, as novas tecnologias visuais. Gil & Ganito distinguem quatro formulações recorrentes do termo pós-género, associadas ou conotadas ao feminismo liberal, feminismo radical, ciberfeminismo e pós-género + pós-moderno. O volume tem textos de Angela McRobbie, Elizabeth Nivre, Sónia Sebastião, Carla Ganito, Cláudia Álvares e Daniel Cardoso, Lara Duarte, Fernando Ampudia de Haro e Lauro António, além de entrevistas a Gilles Lipovetsky, por Carla Ganito e Ana Fabíola Maurício, e Gaye Tuchman, por Gonçalo Pereira Rosa.

Sobre a festa, escrevem os organizadores do volume (Artur Teodoro Matos, Mário Lages e Roberto Carneiro) que ela “está indeclinavelmente associada à contingência humana e à sua incontornável pulsão comunitária. Na alegria como na tragédia, na vida como na morte, na efeméride como na elegia, a festa celebra o mistério humano da ciclicidade, o retorno geracional, o memorial do tempo e a sua inexorável passagem”. O número tem textos de Joaquim de Sousa Teixeira, Ana Isabel Buescu, Alfredo Teixeira, Helena Rebelo Pinto e Maria Teresa Ribeiro, Luís Fagundes Duarte, Marta Lobão Araújo, Nelson Ribeiro e Mário Lages, com uma entrevista a Richard Grusin, por Diana Gonçalves.

6 Janeiro 2011

>AGENDA CULTURAL DE LISBOA

>

A Agenda Cultural Lisboa, revista de distribuição gratuita editada mensalmente pela Câmara de Lisboa, faz 20 anos e vai ter um novo rosto, como a direcção de arte e design, de novo, a cargo de Silva! Designers.

A nova versão da Agenda Cultural Lisboa será apresentada publicamente num evento a ter lugar no próximo sábado, no Cinema S. Jorge (Lisboa).

Disponível aqui (16,14MB).

19 Dezembro 2010

SOBRE A FELICIDADE

Blogue Próximo Futuro (24.11.2010):

“O quarto workshop de investigação Próximo Futuro, realizado no início do mês de Novembro, foi feito em colaboração com o Programa Gulbenkian Ambiente, dirigido pelo Professor Viriato Soromenho-Marques, e foi dedicado à Felicidade. O tema, como é visível pelos abstracts aqui publicados, foi analisado a partir de múltiplas abordagens, quer disciplinares, quer culturais, no que pode ser o histórico ou a experiência
de grupos. O tema é canónico e tem uma longa história de abordagem – de Aristóteles a uma das últimas edições da revista Newsweek. As abordagens, explicações e propostas para atingir este estádio são muitas, diversas e até antagónicas. Subjaz a esta diversidade de propostas as expectativas de cada um dos seus subscritores, que, por sua vez, terão presente nas suas abordagens opções religiosas, políticas e necessariamente o tempo histórico em que as enunciaram. O que se mantém permanente entre a reflexão de Aristóteles e, por exemplo, Gilles Lipovetsky? Porventura a ideia de que haverá sempre a possibilidade de mudar para uma estádio da vida onde o sofrimento esteja excluído e o bem-estar mais presente” (António Pinto Ribeiro). Ler mais.

27 Novembro 2010

CULTURA POPULAR NO TEMPO DO ESTADO NOVO

A cultura popular no Estado Novo é um texto de Daniel Melo onde se analisam os discursos sobre a cultura popular durante o regime (1933-1974), em especial nas casas do povo, ranchos folclóricos, artesanato, museus etnográficos, literatura e marchas populares. O autor opõe a um modelo tradicionalista e nacionalista em Salazar as propostas de associativismo, leitura pública (bibliotecas da Gulbenkian) e acção (Acção Católica).

Inserido na colecção Biblioteca Mínima, com 129 páginas, o livro tem quatro capítulos: 1) o discurso sobre a cultura popular, 2) as práticas culturais no espaço corporativo, 3) as práticas culturais no espaço não corporativo, 4) a concorrência da sociedade civil.

Retiro ideias do último parágrafo da obra. Escreve Daniel Melo: “O entendimento da cultura popular enquanto articulação de uma cultura tradicional do povo e a transformação da mentalidade deste através da acção estatal legitimou toda a política oficial” (p. 124). O Estado Novo buscava, assim, uma identificação com a comunidade que representava, condicionando valores e práticas de identidade nacional e da esfera pública (p. 125). Por isso, o associativismo e outras manifestações da sociedade civil – como escreve Daniel Melo – tiveram sérias limitações.

O autor divide o Estado Novo em sete fases [institucionalização (1933-1934), fascização (1935-1941), primeira crise do regime (1942-1949), contra-ofensiva (1949-1958), segunda crise do regime (1958-1961), guerra colonial (1961-1967), ocaso marcelista (1968-1974)] (p. 15) e relaciona com estas fases as acções e teoria da cultura popular.

Daniel Melo é historiador e investigador no Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa.

Leitura: Daniel Melo (2010). A cultura popular no Estado Novo. Coimbra: Angelus Novus

24 Novembro 2010

AS INTELECTUAIS PÚBLICAS PORTUGUESAS

Laura Pires inspirou-se no quadro de Giorgio de Chirico, Musas Inquietas, para o seu livro. A pintura mostra mulheres, musas numa paisagem metafísica com o castelo de Este em fundo, musas como a mitologia grega representava, ligadas às artes e ciências.

O objecto de trabalho de Laura Pires é falar de dez mulheres intelectuais de forte peso na sociedade nacional em cinco áreas: artes plásticas, música, ciência, arquitectura paisagista e gestão cultural (no Verão, escrevi sobre o livro de Isabel Canha, As mulheres normais têm qualquer coisa de excepcional, de onde retirei o exemplo de uma produtora de televisão, mas o registo das duas obras é muito distinto).

O livro apresenta-se dividido em cinco capítulos: introdução, contextualização teórica, contextualização histórica, áreas de actuação, considerações finais. Escreve Laura Pires que a característica comum às mulheres que observa e analisa é o facto de circularem em áreas governadas e dominadas pelos homens e dirigidas a públicos internacionais (p. 20) – Emília Nadal, Joana Vasconcelos, Maria João Pires, Joana Carneiro, Hanna Damásio, Leonor Parreira, Teresa Andresen, Cristina Castel-Branco, Simonetta Luz Afonso e Yvette Centeno. A escolha do tema resulta de vivências da autora: interesse pelo movimento feminista desde o tempo de estudante universitária, investigação sobre teoria crítica e questões do género e discussão com os seus alunos. Uma das opções metodológicas seguidas pela autora foi o trabalho de Jeffrey Alexander, designado como pertencendo à nova sociologia cultural americana, diferente da de Bourdieu e da escola dos cultural studies de Birmingham.

A autora escolheu metodologias distintas, uma delas a da interseccionalidade, “que indicia e procura examinar várias categorias de discriminação culturalmente construídas e que interagem a vários níveis, contribuindo assim para uma sistemática desigualdade social” (p. 245). Outra das metodologias utilizadas foi a de kiriarquia ou kiriarcado, neologismos que significam, a partir do grego, senhor/dono e governar/dominar e redefinem a “categoria analítica do patriarcado em termos de estruturas de dominação interseccionais e múltiplas” (p. 249), ou melhor: sistema de estruturas interseccionais e múltiplas de ordenação e subordinação, de governar e oprimir.

Laura Pires foi docente da Universidade Aberta e da Universidade Católica. Sobre a sua última aula na licenciatura de comunicação desta última universidade, escrevi aqui (30 de Maio de 2007), incluindo um pequeno vídeo.

19 Novembro 2010

GESTÃO DE PROGRAMAS DE VOLUNTARIADO NA CULTURA

Datas: 3 a 18 de Dezembro de 2010 (6ª e sábados)
CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS
I. Conceitos fundamentais de Voluntariado
Ser Voluntário (significado, motivações)
Benefícios de um Programa de Voluntariado para Organização
Missão de um Programa de Voluntariado
Voluntários e Recursos Humanos
Modelos de Voluntariado (EUA e Europa)
Aspectos legais
Contrato ou compromisso? Políticas e acordos de voluntariado
II. Itinerário de gestão de um Programa de Voluntariado
Identificação da necessidade de voluntários; Criação de oportunidades de voluntariado
Envolvimento dos colaboradores e dos stakeholders
Custos de um Programa de Voluntariado
Recrutamento, selecção, acolhimento e formação
Supervisão, acompanhamento e avaliação
Reconhecimento e retenção
Saúde, Segurança e Seguros
Igualdade de Oportunidades e diversidade
Principais Intervenientes:
Community Service Volunteers, Institute for Advanced Volunteer Management, Londres, Arnie Wickens, http://www.csv.org.uk/
Voluntary Arts Network, Edimburgo, Fiona Campbell, http://www.voluntaryarts.org/
Kennedy Arts Center, Washington, Brooks Boeke, http://www.kennedy-center.org/
Setepés, Porto, Henrique Praça e Vânia Rodrigues, http://www.setepes.pt/

13 Novembro 2010

O SENHOR DO ADEUS

  • “Todos os Domingos, pelas 20.30, no cinema Monumental, João Manuel Serra (o famoso “Senhor do Adeus”) vai ao cinema com Filipe Melo (músico e realizador de cinema amador) e com Tiago Carvalho. Este Blog serve para documentar as opiniões e observações de João Manuel Serra sobre os filmes e sobre a vida. Os filmes terão uma classificação de 0-5 estrelas. É também importante referir que queremos convidar todos os cinéfilos a juntar-se a nós para jantar + cinema aos Domingos à noite no Monumental. Todos os comentários deixados no blog durante a semana serão lidos ao João Serra no Domingo seguinte” (blogue Senhor do Adeus, 26 de Maio de 2009).

Sobre o filme Casamentos e Infidelidades, perguntariam a João Serra: “O que gostou mais no filme”? Resposta: “Achei muita piada à época de 1949. Está muito bem retratada, porque toda aquela época tem assim um bocado daquele pirismo em relação à época de agora, em que é tudo diferente. Há certas coisas, como os trajes delas e a maneira de falar… tudo é um bocadinho piroso naquela época. Acho que está bem retratado. Quer dizer, gostei muito da interpretação dele (Chris Cooper). Acho que até foram bem escolhidos os actores: o casal mais velho. Gostei”.

Não conhecia o Senhor do Adeus até ler a notícia do Público de anteontem. O mesmo texto do Público diz: “”Chamam-me o Senhor do Adeus, mas eu sou o Senhor do Olá. Aquele que acena no Saldanha, a partir da meia-noite. Tudo isto é solidão? Essa senhora é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias de casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente”, escrevia, em Março de 2008, o Expresso sobre João Manuel Serra, salientando: “São quase duas da manhã e os carros não param de lhe apitar. Nem eu de lhes acenar. Só fico triste quando o movimento acaba”.

Também não conhecia o blogue Senhor do Adeus, um interessante (para não dizer importante) espaço de estudo antropológico. Quem escrevia no blogue era a dupla Filipe Melo e Tiago Carvalho, mas o autor era o próprio João Serra, como se lê numa das últimas críticas: “Venho um bocadinho chateado do cinema, porque há muito tempo que não via um filme tão mau. Nem percebi o filme, porque isto não tem argumento – não tem nada a não ser um bocadinho de acção e terror. É maçador, os actores são péssimos, fazem uma caras tão exageradas que parecem do tempo do cinema mudo do antigamente, onde se expressavam melhor assim. Antes fosse cinema mudo, porque além disso com tanto tiro era uma barulheira no cinema. Não tenho mais nada a dizer, não tem ponta por onde se lhe pegue. Na minha opinião (que pode ser diferente da vossa!) não devem ver este filme” (Senhor do Adeus sobre o filme Predators).

O homem que dizia adeus aos automobilistas que passavam na zona do Saldanha, Lisboa, que “nunca trabalhou, mas conhece a Europa toda” e “já entrou em dois filmes e até num teledisco” (Diário de Notícias, notícia em Setembro de 2003, a partir do Público), nascido de família abastada, tornou-se um repositório de cultura e gosto através do blogue. Além da personagem criada, com uma certa teatralidade e ternura pelo gesto simples e simpático com que se dirigia a estranhos apressados na via e à noite, há um interior, uma personalidade que reflectia um gosto de grande parte do século de cinema.

As cidades criam, assim, personagens e personalidades que marcam, pela exuberância, pelo exotismo, pela peculiaridade dos gestos ou pelo apreço particular à cidade em que vivem. Podemos dizer que se trata de produções culturais, factor urbano de distinção.

13 Novembro 2010

O SENHOR DO ADEUS

  • “Todos os Domingos, pelas 20.30, no cinema Monumental, João Manuel Serra (o famoso “Senhor do Adeus”) vai ao cinema com Filipe Melo (músico e realizador de cinema amador) e com Tiago Carvalho. Este Blog serve para documentar as opiniões e observações de João Manuel Serra sobre os filmes e sobre a vida. Os filmes terão uma classificação de 0-5 estrelas. É também importante referir que queremos convidar todos os cinéfilos a juntar-se a nós para jantar + cinema aos Domingos à noite no Monumental. Todos os comentários deixados no blog durante a semana serão lidos ao João Serra no Domingo seguinte” (blogue Senhor do Adeus, 26 de Maio de 2009).

Sobre o filme Casamentos e Infidelidades, perguntariam a João Serra: “O que gostou mais no filme”? Resposta: “Achei muita piada à época de 1949. Está muito bem retratada, porque toda aquela época tem assim um bocado daquele pirismo em relação à época de agora, em que é tudo diferente. Há certas coisas, como os trajes delas e a maneira de falar… tudo é um bocadinho piroso naquela época. Acho que está bem retratado. Quer dizer, gostei muito da interpretação dele (Chris Cooper). Acho que até foram bem escolhidos os actores: o casal mais velho. Gostei”.

Não conhecia o Senhor do Adeus até ler a notícia do Público de anteontem. O mesmo texto do Público diz: “”Chamam-me o Senhor do Adeus, mas eu sou o Senhor do Olá. Aquele que acena no Saldanha, a partir da meia-noite. Tudo isto é solidão? Essa senhora é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias de casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente”, escrevia, em Março de 2008, o Expresso sobre João Manuel Serra, salientando: “São quase duas da manhã e os carros não param de lhe apitar. Nem eu de lhes acenar. Só fico triste quando o movimento acaba”.

Também não conhecia o blogue Senhor do Adeus, um interessante (para não dizer importante) espaço de estudo antropológico. Quem escrevia no blogue era a dupla Filipe Melo e Tiago Carvalho, mas o autor era o próprio João Serra, como se lê numa das últimas críticas: “Venho um bocadinho chateado do cinema, porque há muito tempo que não via um filme tão mau. Nem percebi o filme, porque isto não tem argumento – não tem nada a não ser um bocadinho de acção e terror. É maçador, os actores são péssimos, fazem uma caras tão exageradas que parecem do tempo do cinema mudo do antigamente, onde se expressavam melhor assim. Antes fosse cinema mudo, porque além disso com tanto tiro era uma barulheira no cinema. Não tenho mais nada a dizer, não tem ponta por onde se lhe pegue. Na minha opinião (que pode ser diferente da vossa!) não devem ver este filme” (Senhor do Adeus sobre o filme Predators).

O homem que dizia adeus aos automobilistas que passavam na zona do Saldanha, Lisboa, que “nunca trabalhou, mas conhece a Europa toda” e “já entrou em dois filmes e até num teledisco” (Diário de Notícias, notícia em Setembro de 2003, a partir do Público), nascido de família abastada, tornou-se um repositório de cultura e gosto através do blogue. Além da personagem criada, com uma certa teatralidade e ternura pelo gesto simples e simpático com que se dirigia a estranhos apressados na via e à noite, há um interior, uma personalidade que reflectia um gosto de grande parte do século de cinema.

As cidades criam, assim, personagens e personalidades que marcam, pela exuberância, pelo exotismo, pela peculiaridade dos gestos ou pelo apreço particular à cidade em que vivem. Podemos dizer que se trata de produções culturais, factor urbano de distinção.

7 Novembro 2010

INTELECTUAIS PÚBLICAS PORTUGUESAS

Livro de Laura Pires, a ser lançado no dia 12 deste mês, pelas 12:00, na Universidade Católica Portuguesa.

3 Novembro 2010

POLÍTICAS CULTURAIS AUTÁRQUICAS

O Triunfo das Políticas Culturais Autárquicas é uma actividade organizada pela Câmara de Coimbra e pela Associação Nacional de Municípios Portugueses, a realizar em Coimbra (na Casa Municipal da Cultura), nos dias 11 e 12 de Novembro. Reune representantes da cultura autárquica de todo o país, com reflexão e discussão sobre os presentes desafios das políticas culturais municipais.

26 Outubro 2010

AGENTES CULTURAIS

O GPEARI organiza um seminário sobre mobilidade e internacionalização dos agentes culturais no dia 23 de Novembro, no CCB, em Lisboa (Sala Luís de Freitas Branco, 10:00-13:00 e 14:30-17:30). O debate conta com a presença da Ministra da Cultura, de António Pinto Ribeiro e de representantes de várias organizações internacionais que promovem a mobilidade.

17 Outubro 2010

BOLETIM DA CASA DA ACHADA

“Um ano em velocidade de cruzeiro. Levando em linha de conta o número de iniciativas postas em prática e o facto de elas se deverem essencialmente ao voluntarismo de quantos lhes deram empenho e trabalho, quase se pode dizer que a passada se tem mostrado maior que a perna. Obedecendo aos propósitos fundadores, a Associação centrou na figura e na obra de Mário Dionísio – o pedagogo, o poeta, o crítico, o ensaísta, o pintor, o novelista, o intelectual interventivo – o essencial da sua actividade, isto sem prejuízo de se abrir a outras iniciativas exteriores, entendidas como convergentes do espírito que a anima” [Centro Mário Dionísio].

13 Outubro 2010

CULTURA AÇORIANA

  • A Culturangra e Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, com o apoio do Governo Regional dos Açores e Hotel Marriott Lisboa, realizam até 17 de Outubro, no referido hotel, uma mostra da Cultura Angrense. O grande objectivo desta mostra é levar à capital portuguesa o que “por cá se faz em termos de actividades culturais, mostrando que também somos produtores de cultura, cientes de que as indústrias culturais contribuem para o desenvolvimento da Região”. “A arte e de um modo geral a cultura produzem externalidades positivas, com efeitos benéficos na economia de outras actividades, entre as quais se destaca o turismo”, sublinha a organização.

Fonte: A União

22 Setembro 2010

A RÁDIO COMO VEÍCULO DO ENSINO DO PORTUGUÊS NA GUINÉ-BISSAU

Em Canchungo, a 24 de Abril de 2008, Marcolino Elias Vasconcelos, professor – sobretudo de língua portuguesa – no Liceu Regional Hô Chi Minh, e António Alberto Alves, sociólogo e voluntário, iniciaram o programa Andorinha na Rádio Comunitária Uler A Baand, com o objectivo da promoção da língua portuguesa e da cultura em língua portuguesa. Desde então, mantém a periodicidade semanal, todas as quintas-feiras entre as 20:30 e as 21:30 na frequência de 103 MHz.

De imediato, para responder a diversas solicitações de apoio educativo, jovens estudantes tomaram a iniciativa de se organizarem em bankada*, para ouvirem o programa Andorinha e “praticarem a oralidade e ultrapassarem o receio de falarem em português”.

Ao longo desse ano, constituíram-se bankadas nos bairros da cidade de Canchungo (Betame, Pindai, Catchobar, Tchada, Djaraf, rua de Calquisse, Bairo Nobo) e em algumas tabanka (Cajegute, Canhobe, Tame). Complementarmente, foi constituída a bankada central Andorinha, que concentra as suas actividades no Centro de Desenvolvimento Educativo de Canchungo e que tem organizado algumas iniciativas: sessões de vídeo, acções de sensibilização em escolas, feira do livro.

Ler mais no blogue Andorinha em Canchungo.

* Bankada é um grupo informal mas estruturado, sobretudo de jovens, que se juntam num local na rua, para ouvirem rádio – neste caso, o programa Andorinha e para praticarem a oralidade em língua portuguesa.

12 Setembro 2010

NOVO SÍTIO DA REVISTA COMUNICAÇÃO E CULTURA

A Comunicação e Cultura, revista do Centro de Estudos Comunicação e Cultura (CECC), tem um novo sítio (Comunicação e Cultura), onde se podem consultar os volumes editados, descarregar gratuitamente os artigos publicados e conhecer os call for papers dos próximos números. A revista convida ainda todos os interessados a proporem artigos, sujeitos a blind peer review, no âmbito dos temas agendados e noutros que se enquadrem na temática da Comunicação e Cultura.

24 Agosto 2010

COMUNICAÇÃO E CULTURA

James Carey (1992: 18) fala em duas concepções distintas de comunicação: transmissão (extensão das mensagens através da geografia com o objectivo do controlo) e ritual (cerimónia sagrada que une os indivíduos na comunidade e solidariedade). O mesmo autor considera central a ideia de transmissão de sinais ou mensagens à distância com o propósito da segurança (Carey, 1992: 15). Na perspectiva de transmissão, o jornal vê-se como meio que dissemina notícias e conhecimento, às vezes divertissement (no original), a longa distância; na perspectiva ritual, mostra e confirma uma ideia geral do mundo, retrata as forças em luta no mundo (Carey, 1992: 20).

Leitura: James W. Carey (1992). Communication as culture. Essays on media and society. New York and London: Routledge

27 Julho 2010

A MALA DE LEITURA

O uso crescente de equipamentos audiovisuais marca duas alterações profundas: 1) aumento da cultura visual e oral, 2) raciocínio mais apontado para a experimentação e a prática e menos para a reflexividade. Os defensores da cultura escrita consideram que se está a perder uma longa tradição de leitura e pensamento, os defensores da cultura audiovisual falam num novo paradigma de civilização.

O animador da mala de leitura é um pedagogo de culturas suburbanas e rurais, aparentemente em extinção em países como Portugal mas ainda forte em países africanos e da América Latina. O objectivo daquele animador é vitalizar a importância da leitura individual mas também da oralidade trazida pela leitura colectiva. Que livros traz na sua mala? Contos, histórias de impérios encantados, textos maravilhosos de apelo à imaginação e à criatividade. Ler, segundo o animador da mala de leitura, é um esforço compensador, pois a cultura forja-se nessa disciplina e vontade de ler e saber mais.

Uma mala significa errância, públicos e espíritos que se formam, reuniões de grupos pequenos, onde a participação é bem-vinda. Além dos livros, o animador traz brinquedos que faz a partir de uma árvore. E organiza debates, apresenta ideias e fá-las discutir, partindo com frequência de pontos de vista ignorados ou não considerados como adequados a uma cultura elevada.

O animador da mala de leitura é um agente cultural por quem quase não se dá atenção. Mas é um elemento precioso na revitalização das formas culturais, combinando o saber antigo com o que nos chega dos media mais actuais. Por outro lado, e finalmente, ouvi-lo significa saber o que pensam e agem outros povos e outros conhecimentos que não passam nos media electrónicos.

24 Julho 2010

A CULTURA SEGUNDO A OPOSIÇÃO POLÍTICA

A resposta do PSD às políticas de cultura do PS surgiu em texto pela mão de Nilza Mouzinho de Sena, vice-presidente deste partido e docente do ISCSP, com doutoramento em Comunicação. As palavras de Nilza Sena indicam igualmente o posicionamento da intelectual quanto ao futuro da cultura se houver mudança partidária na condução do próximo governo [fonte: Público, 21.7.2010].

Num outro registo, deixo a ligação de internet para o grupo parlamentar do mesmo partido, com os deputados do PSD a questionarem a Ministra da Cultura, aquando da sua receita ida ao Parlamento, sobre cortes no sector. Além da notícia, há vídeos das questões levantadas pelos sociais-democratas, mas não há vídeos das respostas de Gabriela Canavilhas. O estudioso destas matérias fica com um rico material para leitura e interpretação, mas falta o lado de quem responde (no vídeo: Conceição Jardim). Percebe-se o processo mas não se compreende.

http://rd3.videos.sapo.pt/play?file=http://rd3.videos.sapo.pt/KqimNsQR124QddZNPW1T/mov/1

12 Julho 2010

CULTURA

A ministra da Cultura anunciou não haver cortes orçamentais no sector das artes, invocando “solidariedade interministerial”. Tal foi revelado após o encontro mantido entre Gabriela Canavilhas e representantes da Plataforma das Artes (a partir de notícia da agência Lusa).

7 Julho 2010

MOVIMENTOS NA CULTURA

  • O ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, anunciou ao Parlamento que o Governo, dando seguimento ao “compromisso” do primeiro-ministro em relação à Cultura, decidiu avançar com uma descativação excepcional de 7,5 por cento das verbas oriundas do Programa de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC), parte importante do orçamento de muitos organismos da área (Público online).

Lê-se no jornal em linha que houve recuo por parte do Governo após o forte movimento de desagrado de artistas e produtores das artes e indústrias criativas. Recorde-se a entrevista que a ministra da Cultura deu esta semana à Antena 1. Quando o jornalista perguntou a Gabriela Canavilhas o que ela achava dos cortes orçamentais e a sua influência nos artistas independentes, houve um grande silêncio, após o que a ministra concluiu ser muito difícil responder. Em Junho de 2009 – lê-se no texto do Público -, “já em período de pré-campanha para as eleições legislativas, lamentou o facto de o seu primeiro Governo não ter investido mais na Cultura, prometendo que num eventual próximo mandato esse «erro» seria corrigido”. O que pareceu ter esquecido rapidamente.

6 Julho 2010

LISBON CONSORTIUM

À imagem do London Consortium, é apresentado amanhã, às 12:30, no MUDE (Rua Augusta, 24), o The Lisbon Consortium – ou Consórcio de Lisboa, um programa integrado de formação académica e cultural que, como o congénere inglês, reúne grandes instituições culturais (Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação da Caixa Geral de Depósitos – Culturgest, Cinemateca Portuguesa, Museu Nacional do Teatro e Centro Nacional de Cultura), a Câmara Municipal de Lisboa e a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, procurando assim associar a formação universitária avançada com as actividades de gestão e programação culturais. O Conselho de Curadores integra representantes das várias instituições que compõem o projecto: António Pinto Ribeiro (Gulbenkian e Universidade Católica), Catarina Vaz Pinto (CML), Miguel Lobo Antunes (Culturgest), Maria João Seixas (Cinemateca), José Carlos Alvarez (Museu do Teatro), Guilherme de Oliveira Martins (CNC) e Isabel Capeloa Gil (Universidade Católica).

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