Eduardo Paz Ferreira e a sua sociedade decente

Eduardo Lourenço falava baixinho sobre a Europa e o caos. Ou a crise da Europa. Na sala cheia para assistir ao lançamento do livro de Eduardo Paz Ferreira, Por uma Sociedade Decente, entrava um doce som de grupo coral. Depois, apercebi-me que era um coral juvenil no andar de baixo da reitoria da Universidade de Lisboa.

Antes de Lourenço tinham falado Ricardo Paes Mamede e José Tolentino de Mendonça, aquele sobre a obra quase enciclopédica e atual, este sobre Thomas More e a Utopia e Jonathan Swift e As Viagens de Gulliver (a distopia). Antes ainda o ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes, e o jornalista Nicolau Santos leram poemas.

Creio que Eduardo Paz Ferreira responde à minha questão de ontem (o venezuelano que montou o seu micro-negócio na escada do metropolitano e quer regressar ao seu país mas não tem dinheiro). Escreve ele, mesmo no final da obra, que é tempo de retomar iniciativas para transformarem a sociedade e atribuir centralidade à felicidade coletiva e acabar com a humilhação de pessoas e grupos sociais, lançados às margens da sociedade. Começar de novo e com outros valores, escreve ainda.

Da estação de metro à Venezuela

Já o conheço de o ver ali há alguns anos. Aliás, uma vez escrevi aqui sobre ele, efabulando quem seria e como vivia. Nas escadas de saída do metro, ele monta o seu negócio mais que pequeno: chapéus de chuva, algumas bijuterias, outros adereços. Fuma com muita frequência e conversa com alguns clientes esporádicos. De há meses a esta parte colocou um cartaz solicitando apoio para regressar à Venezuela, o seu país. Na semana passada, distribuía retângulos de folha a pedir que lhe comprassem por 50 cêntimos um dos seus produtos para ajudar à viagem.

Abordei-o e contou-me a história. No seu país, enamorou-se por uma portuguesa e veio para cá, 23 anos atrás. Casou, foi pai, mas divorciou-se. Filhos e pai também se afastaram. Teve um recente acidente vascular cerebral, que lhe afetou a fala, embora o ouvisse com desenvoltura. Mostrou-me uma cicatriz da operação. Agora, os filhos venezuelanos (40 e 36 anos) e os cinco netos querem vê-lo no país dele.

O que falta nesta história dramática que envolve dois continentes?

Calções femininos e rádio em 1971

“Ele: As jovens elegantes passam a usar… calções! Eis a moda lançada para os próximos meses. Os calções, reservados anos atrás ao desporto e à praia, ganham todas as frentes e impõem-se hoje pela cidade, em todas as horas”.

O assistente literário teve dúvidas quanto ao texto e escreveu na primeira página: “Chamo a atenção para a parte assinalada nas páginas 2 e 3. Quanto ao resto, sem problemas”. O chefe de secção não viu problemas, pois o assunto era tema regular na imprensa, mas, à cautela, acrescentou uma frase, resolvendo qualquer questão. O chefe de repartição aprovou.

Emissora Nacional, programa Domingo Sonoro, 7 de fevereiro de 1971, emitido das 13:45 às 14:15. Vozes de Armando Correia e Maria Leonor Magro.

A Menina da Rádio

Em 18 de novembro de 1965, Nuno Rocha (Diário Popular) escrevia sobre Maria Eugénia na rubrica “Que Fazem os Ídolos de Há Vinte Anos”. Ela fora protagonista de um dos filmes portugueses mais acarinhados e recordados: A Menina da Rádio (1944, realizado por Arthur Duarte). O jornalista foi falar com ela, à Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, onde era mãe de dois filhos e se transformara em dona de casa. Sobre o futuro dos filhos, ela não queria que fizessem cinema mas tirassem um curso [gentileza de Gonçalo Pereira, que me deu a conhecer a notícia].

Teatro Aberto

Há três anos por esta altura, quando estreava a peça O Preço, de Arthur Miller, João Lourenço anunciava o próximo encerramento do Teatro Aberto. Então, escrevi aqui que ecoaram a palavra medo e a ideia não ter medo. E não me lembro se empregou a palavra resistência ou se a ideia foi apenas pensada por mim. As companhias estavam a sofrer um forte desinvestimento da cultura, com o Teatro Aberto a receber menos 73% de subsídio estatal do que fora previsto.

Agora, na comemoração dos 40 anos do Teatro Aberto, inaugurado em 1976 com a peça de Brecht O Círculo de Giz Caucasiano, parece mais confiante. João Lourenço ouviu palavras de estímulo do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, quando o protocolo com a EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural) está assinado e esta entidade ligada à Câmara de Lisboa passa a gerir o teatro, e do  presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que atribuiu ao Teatro Aberto o grau de Membro Honorário da Ordem da Instrução Pública, galardão por altos serviços prestados na educação e no ensino. João Lourenço

Encantador foi o filme sobre a vida do Teatro e algumas das suas representações mais emblemáticas. Mas, ao mesmo tempo, estranho – ver o teatro em filme, ver excertos de peças em filme com enquadramento e cortes.